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terça-feira, 24 de agosto de 2010

E-book digitalizado com exclusividade para o site:

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Digitalização e Revisão: Levita Digital

13/09/2009





Por gentileza e por consideração não alterem esta página.







Aviso:

Os e-books disponiveis em nossa página, são distribuidos gratuitamente, não havendo custo algum.

Caso você tenha condições financeiras para comprar, pedimos que abençoe o autor adquirindo a versão impressa.















SEU NOME É

SALVADOR

NÃO É DE ADMIRAR QUE O CHAMEM ASSIM













MAX LUCADO















Copyright © 1986 by Multnomah Press



Publicado originalmente em inglês por

Multnomah Publishers Inc.

Sisters, Oregon 97759 – EUA



Supervisão editorial e de produção

Sidney Alan Leite



Consultoria de planejamento e conteúdo

Dr Alaor Leite



Tradução

Neyd Siqueira



Capa (adaptação)

Helgir Girodo



Impressão

Editora Betânia S/C



Comercialização

Editora Mundo Cristão

www.mundocristao.com.br

(11)5668-1700



Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)



2. ed. -- São Paulo : Editora Vida Cristã, 1999.



Título original: No wonder they call Him the Savior

ISBN85-7163-016-X













ÍNDICE



O Que Importa Realmente



PARTE I — A CRUZ: SUAS PALAVRAS

Palavras Finais, Atos Finais

Palavras Que Ferem

A Vingança do Vigilante

A História do Ladrão Crucificado

Deixar E Amar

O g rito da Solidão

Tenho Sede

Compaixão Criativa

Está Consumado

Leve-Me Para Casa



PARTE II — A CRUZ: SEU TESTEMUNHO

Quém Teria Acreditado?

Rostos na Multidão

Bem... Quase

Os Dez Que Fugiram

Aquele Que Ficou

A Colina do Remorso

O Evangelho da Segunda Oportunidade

Deixe Espaço Para a Magia

Uma Luz na Caverna

Mensageiros em Miniatura



PARTE III — A CRUZ: SUA SABEDORIA

Vivo!

Braços Abertos

Um Vendedor Ambulante Chamado Contentamento

Junto da Cruz — mas Longe de Cristo

O Nevoeiro do Coração Partido

Pao, Senhor?

Cachorrinhos, Borboletas e um Salvador

O Testemunho de Deus

Decisões Explosivas

O Que Você Esperava?

Volte Para Casa

Inconsistências Consistentes

O Rugido









































DEDICATÓRIA



Um grande obrigado a:

Dr. Tom Olbric — por mostrar-me o que importa. Dr. Carl Brecheen — pelas sementes plantadas num coração faminto.

Jim Hackney — pelas suas idéias sobre os sofrimentos do Mestre.

Janine, Sue, Dóris e Paul — pela datilografia e encorajamento.

Bob e Elsie Forcum — pela sua participação no evangelho.

Randy Mayeux e Jim Woodruff — pelos seus comen¬tários construtivos e apoio fraternal. Liz Heaney e Multnomah Press — pelas suas habi¬lidades editoriais e criatividade eficientes. E acima de tudo a Jesus Cristo — por favor, aceite esta oferta de gratidão.





O QUE IMPORTA REALMENTE



"Só quero saber o que tem importância." Forte sotaque irlandês. Olhos escuros, profundos. A frase era sincera. "Não me fale de religião, já andei por esse caminho. E, por favor, fique fora da teologia. Tenho um diploma nisso. Vá fundo no assunto, está bem? Quero saber o que importa."

O nome dele era Ian. Era aluno de uma univer-sidade canadense que eu estava visitando. Através de uma série de acontecimentos ele descobriu que eu era cristão e eu descobri que ele queria ser, mas estava decepcionado.

"Cresci na igreja", explicou. "Queria entrar para o ministério. Fiz todos os cursos: teologia, línguas, exegese. Mas desisti. Alguma coisa não parecia ajus-tar-se."

"Ela está em algum lugar", exclamou com con-vicção. "Pelo menos penso que está."

Olhei por cima do meu café, enquanto ele mexia o seu. A seguir, Ian resumiu sua frustração com uma pergunta.

"O que realmente importa? O que tem valor? Diga-me. Deixe a periferia. Penetre na essência. Diga-me o que importa realmente.

O que tem importância.

Olhei longo tempo para Ian. A pergunta pairava no ar. O que deveria ter dito? O que poderia ter dito? Eu poderia falar-lhe sobre a igreja. Poderia ter-lhe dado uma resposta doutrinária ou lido para ele um clássico como o Salmo 23, "O Senhor é o meu pastor..." Mas tudo parecia-me pequeno demais. Tal¬vez alguns pensamentos sobre sexualidade ou oração sobre a Regra de Ouro. Não, Ian queria o tesouro — ele queria o cerne.

Pare um pouco e pense. Você está ouvindo a pergunta dele? Pode sentir a sua frustração? "Não me fale de religião. Fale-me do que importa", era o que estava dizendo.

O que importa?

Em sua Bíblia de mais de mil páginas, o que tem valor? Em meio a todos os "faça" e "não faça" e "deve e não deve", o que é essencial? O que é indispensável? O Antigo Testamento? O Novo? A graça? O batismo?

O que você teria dito a Ian? Teria falado do mal no mundo ou talvez da iminência do céu? Teria citado João 3.16 ou Atos 2.38 ou talvez lido 1 Coríntios 13?

O que realmente importa?

Você provavelmente já lutou com esta pergunta. Talvez tenha realizado atos de religião e fé, mas encontrou-se com freqüência num poço seco. As ora-ções parecem vazias. Os objetivos inconcebíveis. O cristianismo se torna um registro tortuoso de altos e baixos e notas fora de tom.

Será que isso é tudo? Freqüência aos domingos. Hinos bonitos. Ternos com colete. Coros enormes. Bíblias encadernadas. Isso é bom, mas... onde está o coração, o centro?

Mexi meu café. Ian mexeu o dele. Eu não tinha resposta. Todos os versículos memorizados tão obedientemente pareciam inadequados. Todas as minhas respostas prontas se mostravam tímidas.

Todavia agora, anos depois, sei o que teria dito a ele.

Pense nestas palavras de Paulo em 1 Coríntios, capítulo 15.

"Antes de tudo vos entreguei (como de primeira importância) o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escri¬turas, i

Da primeira importância, diz ele. Continue lendo: E que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu a Cefas, e, depois, aos doze. Aí está. Quase simples demais. Jesus foi morto, sepultado, e ressuscitou. Surpreso? A parte que im¬porta é a cruz. Nada mais que isso. A cruz.

Ela repousa sobre a linha da história como um diamante atraente. Sua tragédia apela a todos os sofredores. Seu absurdo atrai todos os cínicos. Sua esperança seduz todos os que buscam.

Segundo Paulo, a cruz é o que tem valor.

Que grande pedaço de madeira! A história fez dele um ídolo e desprezou-a, cobriu-a de ouro e queimou-a, usou-a e esmagou-a. A história fez tudo com ela, menos ignorá-la.

Essa é a única opção que a cruz não oferece.

Ninguém pode ignorá-la! Você não pode ignorar um pedaço de madeira do qual pende a maior reivin-dicação da história. Um carpinteiro crucificado, ale-gando ser Deus na terra? Divino? Eterno? Matador da morte?

Não é de admirar que Paulo a tenha chamado de "coração do evangelho". A sua última linha faz refletir. Se o seu relato é verdadeiro, trata-se do eixo da história. Ponto. Se não for, é o maior logro da história.

Essa a razão pela qual é a cruz que conta. É por isso que eu falaria com Ian sobre ela se pudesse tomar café novamente com ele. Contaria o drama daquele dia ventoso de abril, o dia em que o reino da morte foi retomado e a esperança encarregou-se dos pagamen-tos. Mencionaria a queda de Pedro, a hesitação de Pilatos e a lealdade de João. Leríamos sobre o jardim enevoado da decisão e o lugar incandescente da ressur-reição. Discutiríamos as palavras finais pronunciadas tão deliberadamente por este Messias auto-sacrificado.

Finalmente olharíamos para o próprio Messias. Um trabalhador judeu braçal, cuja afirmação trans-formou o mundo e cuja promessa jamais foi igualada.

Não é de admirar que o chamem Salvador.

Ê possível que esteja me dirigindo a alguns leitores que queiram fazer a mesma pergunta de Ian. A cruz não é novidade para você. Você já a viu. Já a usou. Já pensou nela. Já leu sobre ela. Talvez tenha até orado para ela. Mas, será que a conhece?

Qualquer estudo sério da reivindicação cristã, em sua essência, é um estudo da cruz. Aceitar ou rejeitar Cristo sem um exame cuidadoso do Calvário é como decidir comprar um carro sem verificar o motor. Ser religioso sem conhecer a cruz é como ter um Mercedes sem motor. Uma embalagem bonita, mas onde está o seu poder?

Quer fazer-me um favor? Pegue uma xícara de café, fique à vontade e dê-me uma hora de seu tempo. Olhe bem para a cruz junto comigo. Vamos examinar essa hora na história. Vamos observar as testemu¬nhas. Vamos ouvir as vozes. Vamos observar os rostos. E, acima de tudo, examinemos aquele que chamam de Salvador. Vejamos então se podemos descobrir a parte que importa.



11 Coríntios 15.3,4. O grifo é meu.



































































PARTE I





A CRUZ:

SUAS

PALAVRAS























PALAVRAS FINAIS, ATOS FINAIS



Em minha viagem recente à minha cidade natal, tirei algum tempo para ir ver uma árvore. "Um carvalho vivo", meu pai a chamara (com um acento no "vivo"). Não passava de uma muda, tão fina que eu podia envolvê-la com a mâo e tocar o dedo médio e o polegar. O vento espalhou as folhas do outono e me fez fechar o casaco. Não há nada mais frio que um vento de pradaria, especialmente num cemitério.

"Uma árvore especial", disse para mim mesmo, "com um trabalho especial". Olhei em volta. O cemitério era rodeado de olmos, mas nenhum carva-lho. O solo se achava salpicado de lápides, mas nâo havia árvores. Só esta. Uma árvore especial para um homem especial.

Há cerca de três anos atrás, meu pai começou a notar um enfraquecimento constante de seus múscu-los. Começou nas mãos. A seguir sentiu a mesma coisa na barriga da perna. Depois disso, os braços afinaram um pouco.

Ele falou sobre o problema com meu cunhado que é médico. Este, alarmadíssimo, enviou-o a um espe¬cialista. O especialista exigiu uma bateria de exames — sangue, neurológico e muscular e chegou a um diagnóstico. Moléstia de Lou Gehrig. Uma doença devastadora. Ninguém conhece a causa ou a cura. A única coisa certa sobre ela é a sua crueldade e exatidão.

Olhei para o pedaço de terreno que um dia iria receber meu pai. Papai sempre quis ser sepultado debaixo de um carvalho e comprou então esse. "Or¬dem especial do vale", brincou. "Tive de obter uma permissão especial da Prefeitura para colocá-lo ali." (Isso não tinha sido difícil naquela poeirenta cidade-zinha de petróleo onde todo mundo conhecia todo mundo.)

O nó aumentou em minha garganta. Um homem mais fraco teria ficado bravo. Um outro talvez tivesse desistido. Mas meu pai não fez isso. Ele sabia que seus dias estavam contados e começou então a pôr sua casa em ordem.

A árvore foi apenas um dos preparativos que fez. Ele melhorou a casa para mamãe, instalando um sistema de irrigação e um sistema eletrônico para abrir a garage e dando uma pintura geral em tudo. Atualizou seu testamento, verificou as apólices de seguro e aposentadoria. Comprou algumas ações para ajudar na educação dos netos. Planejou seu funeral. Comprou terrenos no cemitério para ele e mamãe. Pre-parou os filhos com palavras que lhes transmitissem segurança e cartas cheias de amor. E, por último, comprou a árvore. Um carvalho vivo (acentuando o "vivo").

Atos finais. Horas finais. Palavras finais.

Eles refletem uma vida bem vivida, como acontece com as últimas palavras de nosso Mestre. Quando a morte se aproximou, Jesus também pôs sua casa em ordem:

Uma oração final de perdão. Um pedido aceito. Uma súplica de amor. Uma pergunta no sofrimento. Uma confissão de humanidade.

Um chamado de libertação. Um grito de consumação.

Palavras ao acaso murmuradas por um mártir em desespero? Não. Palavras deliberadas, gravadas pelo Salvador Divino sobre a tela do sacrifício.

Palavras finais. Atos finais. Cada um deles é uma janela através da qual a cruz pode ser melhor com¬preendida. Cada um abre um tesouro de promessas. "Foi então ali que você aprendeu", eu disse em voz alta como se estivesse falando com meu pai. Sorri para mim mesmo e pensei, "É muito mais fácil morrer como Jesus se você tiver vivido como ele por toda uma vida".

As horas finais estão passando agora. A chama leve de sua vela enfraquece cada vez mais. Ele repousa em paz. Seu corpo agonizando, seu espírito vivo. Ele não pode mais deixar o leito. Decidiu passar seus últimos dias em casa. Não demora muito. O sopro da morte irá em breve apagar a vela trêmula e tudo terminará.

Olhei pela última vez para o carvalho esbelto. Toquei-o como se estivesse ouvindo meus pensamen-tos. "Cresça", murmurei. "Cresça forte e alto. O seu tesouro é valioso."

Enquanto voltava para casa através do campo de petróleo, continuei pensando na árvore. Embora frá¬gil, as décadas irão encontrá-la forte. Apesar de del-gada, os anos acrescentarão espessura e resistência. Os seus últimos anos serão os melhores, como ocorreu com meu pai. E também com o Mestre. "É muito mais fácil morrer como Jesus se você tiver vivido como ele por toda uma vida."

"Cresça, arvorezinha." Meus olhos estavam emba¬çados. "Cresça forte e alta. O seu tesouro é valioso."

Ele estava acordado quando cheguei. Debrucei-me sobre o leito. "Fui olhar a árvore", falei. "Ela está crescendo."

Ele sorriu.















































PALAVRAS QUE FEREM



"Pai, perdoa-lhes." Lucas 23.34.

O diáologo naquela manhã de sexta-feira foi amar¬go.

Os espectadores diziam, "Desça da cruz se é o Filho de Deus!"

Os líderes religiosos falavam, "Ele salvou outros, mas nâo pode salvar-se a si mesmo' \

E os soldados, "Se é realmente o rei dos judeus, salve-se a si mesmo".

Palavras amargas, cheias de sarcasmo.Odiosas. Irreverentes. Nâo bastava que ele estivesse sendo cru-cificado? Não bastava que fosse envergonhado como um criminoso? Os pregos eram insuficientes? A coroa de espinhos macia demais? Os açoites muito leves?

Para alguns, a idéia era essa.

Pedro, um escritor que geralmente nâo era dado a usar muitos verbos descritivos diz que os passantes "atiravam" insultos ao Cristo crucificado.1 Eles "ati-ravam" pedras verbais. Tinham toda intenção de ferir e machucar. "Quebramos o corpo, vamos quebrar agora o espírito!" Esticaram os arcos com a auto-retidão e lançaram flechas afiadas e cheias de puro veneno.

De todas as cenas em volta da cruz é esta que me provoca mais ira. Que tipo de pessoas, pergunto a mim mesmo, iria zombar de um homem agonizante? Quem seria tão vil a ponto de derramar o sal do escárnio sobre feridas abertas? Quem tão baixo e perverso que desdenhasse alguém atormentado pelo sofrimento? Quem riria do indivíduo sentado na ca-deira elétrica? Ou quem apontaria o dedo e zombaria do criminoso de cujo pescoço pende o laço do carras¬co?

Pode estar certo que Satanás e seus demônios foram a causa de tal perversidade.

O criminoso na cruz número dois atira então o seu golpe.

"Você não é o Cristo? Salve então a si mesmo e a nós!"

As palavras atiradas naquele dia tinham como objetivo causar dor. E não há nada mais penoso do que esse tipo de palavras. Essa a razão de Tiago ter chamado a língua de fogo consumidor. As queimadu-ras que provoca são tão destrutivas e desastrosas como as de um ferro de soldar.

Não estou falando nada de novo. Você sem dúvida já teve a sua parte de palavras que ferem. Já sentiu a ferroada de uma zombaria que acertou o alvo. Talvez esteja ainda sentindo dor. Alguém que ama e respeita o joga no chão com um lapso verbal. E você fica ali, ferido e sangrando. Talvez as palavras tivessem a intenção de feri-lo, talvez não. Mas isso não importa. A ferida é profunda. Os danos são internos. Coração partido, orgulho machucado, sentimentos ofendidos.

Ou, quem sabe, o seu ferimento é antigo. Embora a flecha tenha sido extraída há muito tempo, a ponta continua alojada... oculta sob a pele. O velho sofri-mento ressurge sem avisar e decididamente, lembran-do você das palavras duras que ainda não conseguiu perdoar.

Se você sofreu ou está sofrendo por causa das palavras de alguém', ficará contente em saber que existe um bálsamo para a sua ferida. Medite sobre estas palavras de 1 Pedro 2.23:

Ele, quando ultrajado, não revidava com ultra¬je, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente.

Viu o que Jesus não fez? Ele não revidou. Ele não se vingou. Não disse, "Vou pegá-lo!" "Venha aqui e diga isso na minha cara!" "Espere até depois da ressurreição, meu amigo!" Essas frases não saíram absolutamente dos lábios de Cristo.

Você viu o que Jesus fez? Ele se entregou "àquele que julga retamente". Ou, em palavras mais simples, deixou o julgamento para Deus. Não tomou a si a tarefa de buscar vingança. Não exigiu desculpas. Não prometeu prêmios aos caçadores, nem enviou pessoa alguma em perseguição. Pelo contrário, surpreenden-temente, os defendeu. "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem." 2

O diálogo naquela manhã de sexta-feira foi sem dúvida amargo. As pedras verbais tinham a intenção de ferir. Como Jesus, com o corpo cheio de dor, os olhos cegos pelo seu próprio sangue, e os pulmões lutando para respirar, podia ainda defender alguns rufiões desalmados, está acima da minha compreen¬são. Jamais, jamais eu vi um amor assim. Se alguém merecia vingar-se, esse era Jesus. Mas não fez isso. Pelo contrário, morreu por eles. Como pôde agir assim? Não sei. Mas sei que de repente meus feri¬mentos deixam de doer. Minhas queixas e ressenti¬mentos ficam de súbito parecendo infantis.

Algumas vezes me pergunto se não vemos o amor de Cristo tanto nas pessoas que tolerou como na dor que sofreu.

Graça sublime.

1 1 Pedro 2.23.

2 Lucas 23.34.

























































A VINGANÇA DO VIGILANTE



"Não sabem o que fazem." Lucas 23.34.



Trinta e sete anos de idade. Magro, quase frágil. Cabelos ralos e óculos. Conhecedor de eletrônica. Respeitador da lei e tímido. Essa não seria certamente a descrição que você daria a um vigilante. De modo algum a pessoa que você escolheria para representar Robin Hood ou o Vaqueiro Solitário.

Mas isso não preocupou o público norte-america¬no. Quando Bernhard Hugo Goetz estourou os miolos de quatro supostos assaltantes num trem subterrâneo de Nova Iorque, ele tornou-se instantaneamente um herói. Uma atriz famosa enviou-lhe um telegrama do tipo "amor e beijos". Camisas com a frase "matador de assassinos" começaram a aparecer nas ruas da cidade de Nova Iorque. Um grupo de roqueiros escreveu uma canção em sua honra. O povo deu e levantou fundos para defendê-lo nos tribunais. Pro¬gramas de rádio ao vivo receberam um dilúvio de cartas. "Eles não querem desistir", disse um entrevis¬tado de um programa radiofônico.

Não é difícil descobrir a razão.

Bernhard Goetz era uma fantasia americana rea¬lizada. Ele fez o que todo cidadão gostaria de fazer.

Revidou. Ele deu um pontapé nas canelas do valentão. "Deu um soco no nariz do vilão." "Golpeou o mal na cabeça." O herói tímido personificou uma ira nacio¬nal ou até mundial: a sede de vingança.

A abundância de apoio é uma evidência clara. As pessoas estão com raiva, elas estão zangadas. Existe uma ira reprimida, fervente, que nos leva a homena-gear o homem que destemidamente (ou temerosamen-te) diz, "Não agüento mais!" e aparece a seguir com uma pistola em cada mão.

Estamos cansados. Cansados de sermos oprimi-dos, molestados e intimidados. Estamos cansados dos assassinos, estupradores e criminosos de aluguel.

Estamos zangados com alguém, mas não sabemos quem. Temos medo de alguma coisa, mas não sabe¬mos do quê. Queremos reagir, mas não sabemos como. E então, quando um valentão moderno entra em cena, nós o aplaudimos. Ele está nos represen¬tando! "É assim que se faz, Amigão, é assim que se faz!"

Ou será que é? É assim realmente que se faz? Vamos pensar um minuto sobre a nossa raiva.

Raiva. Trata-se de uma emoção peculiar, embora previsível. Ela começa como uma gota d'água. Um irritante. Uma frustração. Nada grande, só um agra-vamento. Alguém passa à sua frente no estaciona-mento. Alguém corta sua passagem na estrada. Uma garçonete é lenta quand você está com pressa. A torrada queima. Pingos d'água. Plim. Plim. Plim.

Todavia, recolha o suficiente dessas gotas aparen¬temente inofensivas de raiva e antes de muito tempo você terá um balde cheio de ódio. Vingança ambu¬lante. Amargura cega. Odio desenfreado. Não confia¬mos em ninguém e arreganhamos os dentes para quem quer que se aproxime. Nos transformamos em bombas que andam, as quais, se submetidas à tensão e medo adequados irão explodir como dinamite.

Isso é modo de viver? Qual o proveito que o ódio jamais trouxe? Que esperança a ira já criou? Que problemas foram algum dia resolvidos pela vingança?

Ninguém pode culpar o público americano por aplaudir o homem que revidou. Todavia, quando a atração começa a diminuir em relação a tais atos, a realidade nos leva a fazer perguntas: que bem foi feito? Esse é realmente o meio de diminuir a inci¬dência de crimes? Os transportes subterrâneos estão para sempre seguros? As ruas se acham agora livres do medo? Não. A ira não faz isso. Ela só se alimenta de um desejo primitivo de vingança que alimenta a nossa raiva, que alimenta a nossa vingança, que alimenta a nossa raiva. É fácil ter uma idéia do quadro. Os vigilantes não são a resposta.

Todavia, o que fazer então? Não podemos negar que nossa raiva existe. Como controlá-la? Uma boa opção é encontrada em Lucas 23.34. Jesus fala aqui sobre a multidão que o matou. "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem."

Você já pensou como Jesus deixou de revidar? Você já perguntou como ele manteve o controle? Eis a resposta. Ê a segunda parte de sua declaração, "por¬que não sabem o que fazem". Observe cuidadosamen¬te. É como se Jesus não considerasse aquela multidão sedenta de sangue e faminta de morte como assas¬sinos, mas vítimas. É como se ele não visse nos seus rostos ódio, mas confusão. É como se os considerasse como "ovelhas sem pastor" e não como inimigos a combatê-lo.

"Não sabem o que fazem."

Quando pensamos no episódio, eles realmente não sabiam. Não tinham a menor idéia do que estavam fazendo. Constituíam uma multidão excitada, raivosa contra algo que não podia ver, de modo que ela se voltou contra Deus, justamente contra ele dentre todos. Mas não sabia o que estava fazendo.

Na maioria das vezes, nós também não sabemos. Continuamos, por menos que queiramos admiti-lo, a ser ovelhas sem pastor. Tudo o que sabemos é que nascemos de uma eternidade e estamos medonha-mente perto de outra. Brincamos de pegador com a realidade indistinta da morte e da dor. Não podemos responder às nossas próprias perguntas sobre o amor e a mágoa. Não podemos solucionar o enigma do envelhecimento. Não sabemos como curar nossos cor-pos nem conviver com nossos cônjuges. Não consegui-mos nos manter fora da guerra. Não podemos sequer manter-nos alimentados.

Paulo falou pela humanidade quando confessou, "Não sei o que faço".1

Sei que isso não justifica nada. Não justifica os motoristas que atropelam e fogem, nem os traficantes de pornografia infantil, ou os que pertencem ao comércio de entorpecentes. Mas ajuda a explicar por que eles fazem essas coisas terríveis.

Meu ponto é este: a ira descontrolada não melhora o nosso mundo, mas a compreensão e a simpatia poderão fazê-lo. Uma vez que vejamos o mundo e nós mesmos pelo que somos, há possibilidade de prestar auxílio. Uma vez que nos compreendamos a nós mesmos, começamos a operar por compaixão e in-teresse e não com uma atitude de ira. Não olhamos para o mundo com uma carranca amarga mas com as mãos estendidas. Compreendemos que nossas luzes se apagaram e uma porção de pessoas está tropeçando no escuro. Acendemos então as luzes.

Nas palavras de Michelângelo, "criticamos através da criação". Em lugar de revidar, ajudamos. Vamos aos cortiços. Ensinamos nas escolas. Construímos hospitais e socorremos órfãos... e pomos de lado nossas armas.

"Não sabem o que fazem."

Existe algo sobre compreender o mundo que nos faz desejar salvá-lo, e até morrer por ele. Ira? A ira jamais fez bem a ninguém. Compreensão? Os resul-tados não são tão rápidos quanto as balas do vigilante, mas são com certeza bem mais construtivos.

Romanos 7.15, paráfrase do autor.

























A HISTÓRIA DO LADRÃO CRUCIFICADO



"Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso" Lucas 23.43.



A única coisa mais estranha do que o pedido foi o fato de ter sido concedido. Só a idéia dessa cena já basta para fazer entrar em curto-circuito a mais fantasiosa das imaginações: um ex-condenado pedin¬do a vida eterna ao Filho de Deus? Mas tentar conceber o pedido aceito; bem, isso já passa da esfera da realidade e entra na do absurdo.

Por mais absurdo que pareça, foi porém exatamen¬te isso que aconteceu. Aquele que merecia o inferno ganhou o céu, e fomos deixados com um enigma perturbador. O que Jesus estava querendo nos ensinar na verdade? O que ele tentava provar ao perdoar aquele criminoso que provavelmente jamais dera gra¬ças e muito menos fizera algo para merecê-la?

Bem, eu tenho uma teoria. Mas para explicá-la preciso contar uma história em que você talvez não acredite.

Dois ladrões entraram numa loja de departamen¬tos numa cidade grande. Eles conseguiram invadir a loja, ficaram o suficiente para fazer o que tinham desejado e escaparam sem ser notados. O estranho da história é o que os dois fizeram. Não levaram nada. Absolutamente nada. Nenhuma mercadoria foi rou¬bada. Nenhum artigo removido. Mas o que fizeram foi ridículo.

Em lugar de roubar alguma coisa, eles mudaram o preço de tudo. As etiquetas com o preço foram trocadas. Os valores mudados. Aqueles moleques sabidos tiraram a etiqueta de uma câmera fotográfica de $395 dólares e colocaram nela uma de $5.00. O adesivo de uma brochura foi colocado num motor de barco ao preço de $.95! Eles mudaram o valor de tudo na loja! ,

Loucura? Claro que sim. Mas a parte mais louca da história teve lugar na manhã seguinte. (Você não vai acreditar nisto.) A loja abriu normalmente. Os empregados começaram a trabalhar. Os fregueses foram chegando. Tudo funcionou normalmente du-rante cerca de quatro horas antes que alguém notasse o que ocorrera.

Quatro horas! Algumas pessoas conseguiram óti¬mas pechinchas. Outras foram logradas. Durante quatro horas inteiras ninguém notou que todos os preços haviam sido trocados.

Difícil de acreditar? Não deveria sê-lo, pois vemos a mesma coisa acontecendo todos os dias. Somos inundados por um sistema de valores distorcido. Vemos as coisas mais valiosas em nossas vidas troca¬das por moedinhas e vemos as mais baratas serem vendidas por milhões de cruzados.

Os exemplos são inúmeros e constantes. Vejam alguns que encontrei na semana passada.

O vendedor que defendeu sua prática ilegal com a sentença, "Não vamos confundir negócios com ética".

Os militares que venderam informação ultra-se-creta por seis mil dólares (assim como a sua integri¬dade).

O pai que confessou o assassinato de sua filha de doze anos. A razão para matá-la? Ela se recusou a ir para a cama com ele.

Por que fazemos o que fazemos? Por que pintamos ousadamente de cinza o que é definidamente branco e preto? Por que costumes preciosos são postos de lado enquanto padrões sem sentido são obedecidos? O que nos leva a engrandecer o corpo e depreciar a alma? O que nos leva a cuidar da pele e poluir o coração?

Nossos valores estão misturados. Alguém entrou na loja e mudou todas as etiquetas de preço. Os prazeres são vendidos a peso de ouro enquanto o valor dos seres humanos desce a cada dia.

Não é preciso ser filósofo para determinar o que provocou a baixa no mercado. Tudo começou quando alguém nos convenceu de que a raça humana não tem direção. Que o homem não tem destino. Que estamos num círculo. Que não há razão ou ritmo nesta existên-cia absurda. Em algum lugar aprendemos que estamos presos inconseqüentemente num insignificante pu-nhado de barro que não tem destino certo. A terra não passa de um mausoléu giratório e o universo não tem propósito. A criação foi acidental e a humanidade não tem direção.

Que situação feia, não é?

O segundo verso é ainda pior. Se o homem não tem destino, ele então não tem dever. Nenhuma obrigação ou responsabilidade. Se o homem não tem destino, não possui diretrizes ou alvos. Quem pode dizer portanto o que é certo ou errado? Quem vai dizer que é errado o marido abandonar a esposa e a família? Que não se deve praticar o aborto? O que há de errado em juntar os trapinhos? Quem diz que eu não posso pisar no pescoço de alguém para chegar ao alto? Ê o seu sistema de valores contra o meu. Nenhum absoluto. Nenhum princípio. Nenhuma éti¬ca. Nenhum padrão. A vida fica reduzida a fins de semana, envelopes de pagamento e entusiasmos ou paixões rápidas. A linha final é um desastre.

"O existencialista (escreve o existencialista Jean-Paul Sartre), "acha, extremamente embaraçoso que Deus não exista, pois desaparece com ele toda possibi¬lidade de encontrar valores num céu inteligível...

Tudo na verdade é permitido caso Deus não exista e o homem está em conseqüência perdido, pois nao pode encontrar nada do que depender dentro ou fora dele."1

Se o homem não tem dever nem destino, o próxi-mo passo lógico é que ele não tem valor. Se o homem não tem futuro, ele não vale muito. Ele vale, de fato, tanto quanto uma árvore ou uma pedra. Não existe diferença. Não há razão para estar aqui; portanto, não existe valor.

Você já viu os resultados desta teoria. Nosso sistema enlouquece. Nos sentimos inúteis e desvalori-zados. Nos tornamos extravagantes. Criamos sistemas de valores falsos. Dizemos que você tem valor se for bonito. Dizemos que tem valor se produzir. Dizemos que tem valor se jogar bem basquete ou futebol. Você tem valor se o seu nome tiver um "Dr." na frente. Você tem valor se o seu salário for alto ou se dirige um carro estrangeiro.

O valor é agora medido por dois critérios: aparên¬cia e performance.

Um sistema bem duro, não é mesmo? Onde fica nele o retardado? Ou o feio e inculto? Onde é colocado o idoso ou o deficiente? Qual a esperança que ele oferece para a criança que ainda não nasceu? Bem pouca. Muito pouca coisa. Nos tornamos núme¬ros sem nome em listas perdidas.

Agora compreenda que esse é o sistema de valores humano. Não é o de Deus. O plano dele é muito mais brilhante. Deus, com os olhos faiscando, vai até o quadro-negro do filósofo, apaga o círculo infinito e incessante da história e o substitui por uma linha; uma linha cheia de esperança, prometedora e delga¬da. Olhando por cima do ombro para ver se os alunos estão atentos, ele desenha uma seta no fim.

No livro de Deus o homem tem direção. Ele tem um destino surpreendente. Estamos sendo preparados para andar pela nave da igreja e nos tornarmos a noiva de Jesus. Vamos viver com ele. Partilhar do trono com ele. Reinar com ele. Nós contamos para alguma coisa. Somos valiosos e, mais ainda, nosso valor é embutido! Nosso valor já nasce conosco.

Veja bem, se havia algo que Jesus desejava que todos compreendessem era isto: O indivíduo tem valor simplesmente por ser uma pessoa. Essa a razão pela qual ele tratava todos como fazia. Pense nisso. A garota descoberta fazendo amor com alguém que não devia — ele a perdoou. O leproso intocável que pediu para ser curado — ele o tocou. O mendigo cego que tentou impedir o trânsito na estrada — ele o atendeu. E o homem cansado e doente, cheio de autopiedade junto ao poço de Siloé, ele o curou!

Não se esqueça do estudo clássico sobre o valor da pessoa feito por Lucas. Ele é chamado de "história do Ladrão Crucificado".

Se houve alguém indigno, esse homem o era. Se alguém já mereceu morrer, esse homem provavel-mente mereceu. Se alguém já foi um perdedor, ele sem dúvida encabeçava a lista.

Jesus o escolheu talvez para mostrar-nos o que pensa da raça humana.

É possível que esse criminoso tivesse ouvido o Messias falar. Quem sabe o vira mostrar amor pelos humildes. Ou observara quando Ele comia com os vadios, batedores de carteiras e viciados nas ruas. Ou talvez não. Ele quem sabe tinha apenas conhecimento do Messias que estava vendo naquele momento: um pregador açoitado, sangrando, suspenso por pregos. Sua face escorrendo sangue, seus ossos aparecendo através da carne dilacerada, seu corpo lutando para respirar.

Alguma coisa, no entanto, lhe disse que jamais estivera em melhor companhia. E de alguma forma ele compreendeu que embora tudo que tivesse fosse uma oração, ele finalmente encontrara Aquele a quem devia orar.

"Há qualquer possibilidade de dizer uma palavra boa a meu respeito?" (Tradução livre.) "Eu lhe garanto."

Por que Jesus fez isso? O que ele tinha a ganhar ao prometer àquele desesperado um lugar de honra à mesa do banquete? Posso entender o caso da mulher samaritana. Ela podia voltar e passar adiante a história. Zaqueu também tinha algum dinheiro para dar. Mas esse homem? O que ele ia fazer? Nada!

É esse o ponto. Veja bem. O amor de Jesus não depende do que possamos fazer por ele. Absoluta-mente não. Aos olhos do Rei, você vale simplesmente pelo que é. Não é necessário que seja de boa aparência ou tenha um bom desempenho. O seu valor é inato.

Ponto final.

Pense nisso por um minuto. Você é valioso só por existir. Não é pelo que faz ou pelo que fez, mas simplesmente porque é. Lembre-se disso. Lembre-se disso da próxima vez que for deixado ao sabor das ondas por causa da ambição de outrem. Lembre-se quando algum espertalhão quiser colocar uma etique-ta de desconto total na sua auto-estima. Da próxima vez que alguém quiser humilhá-lo, pense apenas na maneira como Jesus lhe dá honra... e sorria.

Eu faço isso. Sorrio porque sei que não mereço um amor assim. Nenhum de nós merece. Quando vamos fundo no assunto, percebemos que qualquer contri¬buição nossa é bem insignificante. Todos nós — até os mais puros — merecemos o céu na mesma medida que o ladrão merecia. Todos nós estamos assinando o cartão de crédito de Jesus e não o nosso.

Também me faz sorrir quando penso que há um ex-condenado sorridente andando pelas ruas de ouro que sabe mais sobre a graça que um milhão de teólogos. Ninguém mais teria dado a ele uma oração. Mas no final isso era tudo quanto tinha. E no final, isso foi tudo que precisou.

Não é de admirar que o chamem Salvador.



1 Walter Kaufman, ed., Existentialism from Dos-toyevskey to Sartre, New York, Meridian Books, 1956, pp. 294-295.





















































DEIXAR É AMAR



"Mulher, eis aí o teu filho." João 19.26.



O evangelho está cheio de desafios retóricos que provam a nossa fé e resistência contra a natureza humana.

"Mais bem-aventurado é dar que receber."1 "Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salva¬rá."2

"Não há profeta sem honra senão na sua terra e na sua casa."3

Mas nenhuma declaração é mais difícil de enten¬der ou amedrontadora do que a de Mateus 19.29: "E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe (ou mulher), ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará a vida eterna."

A parte sobre deixar casas e propriedades posso compreender. Ê a outra parte que me faz estremecer. A parte sobre deixar pai e mãe, dizer adeus aos irmãos e irmãs, dar um beijo de despedida num filho ou filha. É fácil comparar o discipulado com a pobreza ou a desgraça pública, mas deixar minha família? Por que devo estar disposto a deixar meus entes queridos? Pode o sacrifício ficar ainda mais sacrificial do que isso?"

"Mulher, eis aí o teu filho."

Maria está mais velha agora. O cabelo nas têmpo¬ras ficou grisalho. As rugas substituíram sua pele jovem. Tem as mãos calosas. Ela criou vários filhos e agora contempla a crucificação do primogênito.

Ficamos pensando quais as lembranças que lhe passam pela mente enquanto testemunha a tortura dele. A longa viagem para Belém, talvez. Uma cami-nha de bebê feita de palha. Fugitivos no Egito. Em casa em Nazaré. Pânico em Jerusalém. "Pensei que estava em sua companhia!" Lições de carpintaria. Riso à mesa do jantar.

E aquela manhã que Jesus chegou cedo da oficina, seus olhos mais firmes, sua voz mais direta. Ele ouvira as notícias. "João está pregando no deserto." Seu filho tirou o avental, limpou as mãos e com um último olhar despediu-se da mãe. Ambos sabiam que nada mais seria igual de novo. Naquela último olhar eles compartilharam um segredo, cuja extensão era dema-siado penosa para ser repetida em voz alta.

Maria aprendeu naquele dia que o sofrimento vem com a despedida. A partir daquele momento teria de amar o filho à distância; na periferia da multidão, do lado de fora de uma casa cheia, na praia do mar. Talvez ela até estivesse lá quando foi feita a promessa enigmática: "E todo aquele que tiver deixado... mãe... por causa do meu nome."

Maria não foi a primeira a ser chamada para despedir-se de seus entes queridos por causa do reino. José foi chamado para ser órfão no Egito. Jonas para ser um estrangeiro em Nínive. Ana levou seu primo-gênito para servir no templo. Daniel foi enviado de Jerusalém para a Babilônia. Neemias de Susã para Jerusalém. Abraão recebeu ordem para sacrificar seu próprio filho. Paulo teve de despedir-se da sua heran-ça. A Bíblia está unida por trilhas de adeuses e manchada por lágrimas de despedida.

De fato, parece que adeus é uma palavra que prevalece no vocabulário cristão. Os missionários a conhecem muito bem. Os que os enviam também a conhecem de sobra. O médico que deixa a cidade para trabalhar no hospital na selva já pronunciou essa palavra. O mesmo acontece com o tradutor da Bíblia que mora longe de casa. Os que alimentam os famin-tos, os que ensinam os perdidos, os que ajudam os pobres, todos eles conhecem o termo "adeus".

Aeroportos. Bagagem. Abraços. Luzes de ré su-mindo na distância. "Diga até logo para a vovó." Lágrimas. Estações rodoviárias. Cais marítimos. "Adeus, papai." Gargantas contraídas. Balcões de passagens. Olhos molhados. "Escreva!"

Pergunta: Que tipo de Deus colocaria as pessoas em tal agonia? Que tipo de Deus lhes daria famílias e depois pediria que as deixasse? Que tipo de Deus lhes daria amigos e depois pediria que lhes dissesse adeus?

Resposta: Um Deus que sabe que o amor mais profundo não é construído sobre a paixão e o romance, mas sobre uma missão e um sacrifício comuns.

Resposta: Um Deus que sabe que somos apenas peregrinos e que a eternidade está bem perto e que qualquer "Adeus" é na verdade um "Te vejo ama¬nhã".

Resposta: Um Deus que também fez isso.

"Mulher, eis aí o teu filho."

João abraçou Maria um pouco mais apertado. Jesus estava pedindo que fosse o filho que uma mãe precisa e que de certa forma ele não fora.

Jesus olhou para Maria. Sua dor tinha uma origem muito mais profunda que os pregos e espinhos. Em seu olhar silencioso eles trocaram de novo um segredo e ele disse adeus.







1 Atos 20.35.

2 Lucas 9.24.

3 Mateus 13.57.











































O GRITO DA SOLIDÃO



"Deus meu. Deus meu, por que me desamparaste?"

Mateus 27.46.



Para os que tiveram de suportá-lo, o verão de 1980 em Miami não foi nada agradável. O calor da Flórida escaldava a cidade durante o dia e a assava à noite. Tumultos, saques e tensão racial ameaçavam romper os nervos desgastados das pessoas. Tudo subia: o desemprego, a inflação, o índice de criminalidade e especialmente o termômetro. Em meio a tudo isso, um repórter do Miami Herald conseguiu uma história que deixou toda a Costa do Ouro sem fôlego. Foi a história de Judith Bucknell. Atraente, jovem, bem-sucedida e morta.

Judith Bucknell foi o crime número cento e seis nesse ano. Ela foi assassinada numa noite quente, a nove de junho. Idade: 38 anos. Peso: 45 kg. Esfaquea¬da sete vezes. Estrangulada.

Ela mantinha um diário. Se não fizesse isso, talvez a sua memória fosse sepultada com o seu corpo. Mas o diário existe; um epitáfio penoso de uma vida soli¬tária. O correspondente fez este comentário sobre os seus escritos:

Em seu diário, Judy criou um personagem e uma voz. O personagem é ela mesma, ansiosa, lu¬tando, cansada; a voz é cheia de desejo. Judith Bucknell deixou de fazer ligação; idade 38, muitos amantes, muito amor oferecido, nenhum retribuído.1

Suas dificuldades não eram incomuns. Ela se preocupava com envelhecer, engordar, casar-se, ficar grávida e com a passagem do tempo. Morava na ele-gante Coconut Grove (que é o lugar onde você mora quando vive sozinha, mas procura aparentar felicida-de).

Judy era o modelo perfeito do ser humano confuso. Metade de sua vida não passava de fantasia, a outra metade de pesadelo. Bem-sucedida como secretária, mas uma negação no amor. Seu diário estava repleto de anotações assim:

Onde estão os homens com as flores, a cham-panhe e a música? Onde estão os homens que telefonam e pedem um encontro verdadeiro? Onde estão os homens que querem comparti¬lhar mais que minha cama, minha bebida, meu alimento... Eu queria ter em minha vida, uma vez antes que passe pela vida, o tipo de rela¬cionamento sexual que faz parte de um contato de afeto.2

Ela nunca teve.

Judy não era uma prostituta. Ela não era viciada, nem um caso do departamento de bem-estar social. Jamais foi presa. Não era repudiada pela sociedade. Era respeitável. Dava festas. Usava roupas de boa qualidade e tinha um apartamento que olhava para a baía. E era muito solitária. "Vejo as pessoas em grupo e fico com tanta inveja que quase desmaio. E eu? E eu?" Embora rodeada de gente, se achava numa ilha. Apesar de ter muitos conhecidos, possuía poucos amigos. Embora tivesse muitos amantes (59 em cin-qüenta e seis meses), tinha pouco amor.

"Quem vai amar Judy Bucknell?" o diário conti-nua. "Sinto-me tão velha. Mal amada. Indesejada.

Abandonada. Usada. Quero chorar e dormir para sempre." 3

Uma mensagem clara transparecia de suas pala-vras doloridas. Embora seu corpo morresse a 9 de junho, ferido de faca, seu coração morrera muito antes... de solidão.

"Estou sozinha", escreveu ela, "e quero compar-tilhar alguma coisa com alguém."4

Solidão.

É um grito. Um gemido, um lamento. Ê um sus-piro cuja origem está nos recessos de nossas almas.

Você pode ouvi-lo? A criança abandonada. Os divorciados. A casa silenciosa. A caixa do correio vazia. Os dias longos, as noites mais longas ainda. Esperar em vão por uma noite. Um aniversário esque-cido. Um telefone silencioso.

Gritos de solidão. Ouça de novo. Desligue o baru¬lho do trânsito e da TV. O grito ali está. Nossas cidades estão repletas de Judy Bucknells. Você pode ouvir seus gritos. Pode ouvi-los nas enfermarias, entre os suspiros e os pés se arrastando. Pode ouvi-los nas prisões entre os gemidos de vergonha e os apelos por misericórdia. Pode ouvi-los se andar pelas ruas bem tratadas, entre as ambições fracassadas. Procure ouvir nos corredores de nossas escolas, onde a pressão dos colegas separa os ricos dos pobres.

Este lamento em nota menor conhece todos os escalões da sociedade. Desde cima até embaixo. Des¬de os fracassos até os que têm fama. Desde os pobres até os ricos.Dos casados aos solteiros. Judy Bucknell não estava só.

Muitos de vocês foram poupados deste grito cruel. É claro que tiveram saudade de casa ou ficaram perturbados uma ou duas vezes. Mas, desespero? Longe disso. Suicídio? De modo algum. Fique conten¬te porque ele não bateu à sua porta. Ore para que isso jamais aconteça. Se não tiver travado ainda esta bata-lha, deve continuar lendo se desejar, mas estou na-verdade escrevendo para outra pessoa.

Estou escrevendo para aqueles que conhecem este grito de primeira mão. Para aqueles de vocês cujos dias estão cheios de corações partidos e noites compri-das. Para aqueles que podem encontrar um indivíduo solitário simplesmente olhando no espelho.

Para vocês, a solidão é um estilo de vida. As noites de insónia. O leito solitário. A desconfiança. O medo do amanhã. A mágoa sem fim.

Quando começou? Na sua infância? Por ocasião do divórcio? Ao aposentar-se? No cemitério? Quando os filhos saíram de casa?

Talvez você, como Judy Bucknell, enganou todo mundo. Ninguém sabe que é solitário. Por fora a embalagem é perfeita. Seu sorriso é rápido. Seu emprego é estável. Suas roupas são finas. Sua cintura é delgada. Sua agenda está cheia. Seu andar é enérgi¬co. Sua conversa impressiona. Mas quando se olha no espelho, não engana ninguém. Quando está sozinho, a duplicidade acaba e surge o sofrimento.

Ou talvez você tente esconder as coisas. Quem sabe foi sempre aquele que olha de fora do círculo e todos sabem. A sua conversa é um pouco desajeitada. Sua companhia poucas vezes solicitada. Suas roupas são desgraciosas. Sua aparência comum. Ziggy é seu herói e Charlie Brown seu mentor.

Estou atingindo o alvo? Se estou, se você concor-dou com a cabeça ou suspirou de compreensão, tenho uma mensagem importante para você.

O grito mais doloroso de solidão na história não veio de um prisioneiro, de uma viúva ou de um doente. Mas veio de uma colina, de uma cruz, de um Messias.

"Deus meu, Deus meu!" ele gritou, "Por que me desamparaste?"5

Jamais as palavras contiveram tanta dor. Jamais alguém sentiu tanta solidão.

A multidão se cala quando o sacerdote recebe o bode; o bode puro, imaculado. Em sombria cerimônia ele coloca as mãos sobre o animal jovem. Enquanto o povo assiste, o sacerdote faz a sua proclamação. "Os pecados do povo estejam sobre ti." O animal inocente recebe os pecados dos israelitas. Toda a cobiça, adultério e engano são transferidos dos pecadores para esse bode, esse bode expiatório.

Ele é levado então até às extremidades do deserto e ali libertado. Banido. O pecado precisa ser purificado e o bode expiatório é assim abandonado. "Corra, bode! Corra!"

O povo fica aliviado.

O Senhor foi apaziguado.

O portador do pecado está só.6

Agora, no Lugar da Caveira, o portador se acha de novo sozinho. Cada mentira contada, cada objeto cobiçado, cada promessa quebrada pesa sobre seus ombros. Ele foi feito pecado.

Deus se afasta. "Corra, bode! Corra!"

O desespero é mais escuro que o céu. Os dois que eram um são agora dois. Jesus, que estivera com Deus na eternidade, se encontra só. O Cristo, que era uma expressão de Deus, foi abandonado. A Trindade se destroçou. A Divindade se dividiu. A união foi dissol-vida.

Isso é mais do que Jesus pode suportar. Ele agüen¬tou os açoites e permaneceu firme frente aos falsos julgamentos. Ele observou em silêncio a fuga dos entes queridos. Ele não revidou quando insultos lhe foram atirados nem gritou quando os pregos penetra-ram em seus pulsos.

Mas quando Deus voltou a cabeça, foi demais.

"Deus meu!" O lamento saiu de lábios ressequi-dos. O coração santo se partiu. O portador do pecado grita ao vagar pelo deserto eterno. Do silêncio do céu se ouvem as palavras gritadas por todos os que andam pelo deserto da solidão. "Por quê? Por que você me abandonou?"

Não posso compreender. Sinceramente não consi¬go. Por que Jesus fez isso? Oh, eu sei, eu sei. Ouvi as respostas oficiais. "Para satisfazer a velha lei." "Para cumprir a profecia." E essas respostas estão certas. Mas há algo mais em tudo isso. Algo que fala de compaixão. Algo ansioso. Algo pessoal.

O que será?

Posso estar errado, mas continuo pensando no diário. "Sinto-me abandonada", escreveu ela. "Quem vai amar Judith Bucknell?" E fico pensando nos pais da criança morta. Ou no amigo ao lado do leito de hospital. Ou dos idosos no abrigo de velhos. Ou dos órfãos. Ou na enfermaria de cancerosos.

Fico pensando em todos que olham em desespero para os céus sombrios e clamam: "Por quê?"

E imagino a ele. Imagino quando ficou à escuta. Penso em seus olhos se embaciando e a mão ferida afastando uma lágrima. Embora não possa oferecer resposta, embora não possa resolver qualquer dilema, embora a pergunta possa congelar-se penosamente no ar, ele que também ficou certa vez sozinho, pode compreender.







1 Madeleine Blais, "Who's Going to Love Judy Bucknell?" (Part I), Tropic Magazine, The Miami Herld, 12 October 1980.

2 Ibid.

3 Ibid.

4 Ibid.

5 Mateus 27.46.

6Levítico 16.22 (paráfrase do autor).

























TENHO SEDE



"Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede!" João 19.28.



I.



"Estou cansado", suspirou. Deteve-se então. "Vo-cês continuam e pegam a comida. Vou descansar aqui." Estava cansado. Cansado até os ossos. Seus pés doíam. Seu rosto estava quente. O sol do meio-dia escaldava. Queria descansar. Parou então junto ao poço, mandou que os discípulos seguissem, esticou o corpo e sentou-se. Mas antes que pudesse fechar os olhos, surgiu uma samaritana. Ela estava só. Talvez as bolsas sob os seus olhos ou a maneira como se encurvava tivesse feito com que se esquecesse do seu próprio cansaço. "Como é estranha a sua presença aqui ao meio-dia."



II.

"Estou com sono." Ele se espreguiçou. Bocejou. O dia fora longo. A multidão grande, tão grande que pregar na praia tornou-se um risco, de modo que ensinou de pé num barco de pesca. A noite agora caíra e Jesus estava com sono. "Se vocês não se importam, vou dar uma cochilada." Foi o que fez. Numa noite anuviada no Mar da Galileia, Deus adormeceu. Al-guém arranjou-lhe um travesseiro e ele deitou-se no lugar mais seco do barco. O seu sono era tão profundo que os trovões não o acordaram. Nem o sacudir do bote. Nem os respingos das ondas formadas pela tempestade. Só os gritos de alguns discípulos assusta-dos puderam penetrar em seu sono.



III.

"Estou zangado." Não era preciso dizê-lo; você podia ver isso nos olhos dele. O rosto vermelho. Os vasos sangüíneos salientes. Os punhos cerrados. "Não aceito mais isto!" O que era antes um templo tor¬nou-se um salão de luta-livre. O que era um dia normal de comércio virou desordem. O que era um sorriso na face do Filho de Deus transformou-se em carranca. "Saiam daqui!" A única coisa que voou mais alto que as mesas foram as pombas procurando o caminho da liberdade. Um Messias irado fez-se entender: não faça comércio com a religião ou Deus o transformará em palha!

Temos uma dívida para com Mateus, Marcos, Lucas e João por terem incluído esses vislumbres de humanidade. Eles não precisavam fazer isso, como sabe. Mas fizeram — e na hora certa.

No momento em que sua divindade está-se tornan¬do inabordável, quando a sua santidade está-se tor¬nando intocável, quando a sua perfeição se mostra inimitável, o telefone toca e uma voz sussurra, "Ele é humano. Não se esqueça. Ele era de carne."

No momento exato somos lembrados de que aque¬le a quem oramos conhece os nossos sentimentos. Ele conhece a tentação. Ele sentiu-se desanimado. Ficou com fome, com sono' e exausto. Ele sabe como nos sentimos quando o despertador toca. Sabe como nos sentimos quando nossos filhos querem coisas dife-rentes na mesma hora. Concorda compreensivo quan-do oramos zangados. Fica sensibilizado quando lhe dizemos que há mais coisas a fazer do que é possível para nós executar. Ele sorri quando confessamos nosso cansaço.

Somos porém mais devedores de João por ter resolvido incluir o versículo 28 do capítulo 19. Ele diz simplesmente:

"Tenho sede."

Não é o CRISTO que tem sede. Ê o carpinteiro. E essas são palavras humanas em meio à divindade.

Esta frase confunde o esboço do seu sermão. As outras seis declarações são mais "em caráter". Elas são gritos que poderíamos esperar: perdão de peca¬dores, promessa de paraíso, cuidado pela mãe, e até mesmo o lamento, "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" contém poder.

Mas, "sede"?

No instante em que tínhamos tudo resolvido, quando a cruz havia sido estudada e definida. Quan¬do o manuscrito havia terminado. No momento em que inventamos todos esses termos interessantes ter-minados em "ção", como santificação, justificação, propiciação e purificação. Quando colocamos nossa grande cruz dourada no nosso grande campanário de ouro, ele nos lembra que "o Verbo se fez carne".

Ele quer que lembremos que ele, também, era humano. Quer que saibamos que ele também conhe¬cia a rotina e o cansaço dos dias longos. Quer que lembremos que nosso pioneiro não usava coletes à prova de bala ou luvas de borracha ou uma armadura impenetrável. Nada disso, ele abriu caminho para a nossa salvação através do mundo que você e eu en-frentamos diariamente.

Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores e a Palavra da Vida. Mais do que nunca Ele é a Estrela da Manhã, a Trombeta da Salvação e o Príncipe da Paz.

Existem, porém, algumas horas em que somos restaurados ao lembrar que Deus se fez carne e habitou entre nós. Nosso Mestre sabia o que era ser um carpinteiro crucificado que teve sede.

















































COMPAIXÃO CRIATIVA



"Está consumado!" João 19.30.



"No princípio criou Deus os céus e a terra."1 É isso que lemos. "Deus criou os céus e a terra." Não está escrito: "Deus fez os céus e a terra." Nem que ele fez um "xerox" dos céus e da terra. Ou "construiu" ou "desenvolveu" ou "produziu em série". De modo algum. A palavra foi "criou".

Essa palavra diz muito. Criar é muito diferente de construir. A diferença é evidente. Construir alguma coisa ocupa apenas as mãos enquanto criar envolve o coração e a alma.

Você já deve ter notado isso em sua vida. Pense em alguma coisa que tenha criado. Um quadro talvez. Ou uma canção. Aquelas linhas de poesia que nunca mostrou a ninguém. Ou até mesmo a casinha de cachorro no quintal.

Como você se sente com respeito à criação? Bem? Espero que sim. Orgulhoso? Um tanto protetor? Deveria. Parte de você vive nesse projeto. Quando você cria algo está colocando seu "eu" nele. Trata-se de um evento bem mais importante do que um dever ou tarefa comuns; é uma expressão de sua pessoa!

Imagine agora a criatividade de Deus. De tudo quanto não sabemos sobre a criação, há algo que sabemos — ele a fez sorrindo. Deve ter sido uma aventura. Pintar as listas na zebra, pendurar as estrelas no céu, colocar o tom dourado no pôr-do-sol. Que criatividade! Esticar o pescoço da girafa, colocar movimento nas asas dos pássaros, fazer com que a hiena ria.

Como se divertiu. Como o carpinteiro assobiando em sua oficina, aproveitou cada momento. Atirou-se ao trabalho. Sua criatividade foi tão intensa que tirou um dia de folga no final da semana só para descansar.

Depois disso, como um final de concerto brilhante, fez o homem. Com seu talento típico, ele começou com um monte inútil de terra e terminou com uma espécie de valor incalculável chamada de ser humano. Um ser humano que tinha a honra singular de levar o rótulo, "A Sua Imagem".

Neste ponto da história nos sentimos tentados a pular e bater palmas. "Bravo!" "Bis!" "Inimitável!" "Belíssimo!"

Mas o aplauso seria prematuro. O Artista Divino vai revelar ainda sua maior criação.

A medida que a história se desenrola, uma cobra diabólica alimenta Adão com uma linha e uma maçã e o ingênuo homem engoliu a ambas. Este ato de rebe¬lião pôs em movimento uma comunicação errática entre Deus e o homem. Embora os personagens e a cena mudem, o cenário se repete interminavelmente. Deus, ainda o Criador compassivo, faz a corte à sua criação. O homem, a criação, alternadamente se aproxima arrependido e foge em rebelião.

A criatividade de Deus floresce dentro desse "script" simples. Se você já o julgou imaginativo com o mar e as estrelas, espere só até ler o que ele faz para que sua criação o obedeça: Por exemplo: Uma mulher de noventa anos fica grávida.

Outra mulher se transforma em estátua de sal. Um dilúvio cobre a terra. Uma sarça arde (mas não se queima!) O Mar Vermelho se parte em dois. As muralhas de Jericó caem. Fogo chove do céu. Um asno fala.

E você fala de efeitos especiais! Esses atos, por mais engenhosos que sejam, não se poderiam compa-rar com o que estava para vir.

Perto do clímax da história, motivado pelo amor e orientado pela divindade, Deus surpreendeu a todos. Ele tornou-se homem. Num mistério intocável, dis-farçou-se de carpinteiro e viveu numa poeirenta cida-de judia. Decidido a provar seu amor pela criação, andou incógnito pelo seu próprio mundo. Suas mãos calosas tocaram feridas e sua língua compassiva tocou os corações. Ele tornou-se um de nós.

Você já viu tamanha decisão? Já testemunhou um tal desejo de comunicar-se? Se uma coisa não dava certo tentava outra. Se uma abordagem falhava, se utilizava de outra nova. Sua mente jamais parava. "Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras", escreve o autor de Hebreus, "nes¬tes últimos dias nos falou pelo Filho".2

Por mais belo porém que tivesse sido este ato de encarnação, não foi o máximo. Como um pintor magistral, Deus reservou sua obra-prima para o fim. Todos os atos anteriores de amor levavam para ela. Os anjos se calaram e os céus fizeram uma pausa para observar o final. Deus desvenda a tela e o último ato de compaixão criativa é revelado.

Deus numa cruz.

O Criador sendo sacrificado pela criação. Deus convencendo o homem de uma vez por todas de que o perdão ainda é concedido após a falha.

Fico imaginando se, enquanto se achava na cruz, o Criador permitiu que, seus pensamentos retrocedes¬sem até o começo. Fico imaginando se ele permitiu que os milhares de faces e atos marchassem em fila pela sua memória. Ele pensou na criação do céu e do mar? Relembrou as conversas com Abraão e Moisés? Lembrou-se das pragas e das promessas, do deserto e das peregrinações? Não sabemos.

Sabemos, no entanto, o que ele disse.

"Está consumado."

A missão acabara. Tudo o que o pintor perfeito tinha a fazer já estava pronto e feito esplendidamente. A sua criação podia agora voltar para casa.

"Está consumado!" gritou ele.

E o grande Criador foi para casa.

(Ele não está descansando, no entanto. Foi dito que suas mãos incansáveis estão preparando uma cidade tão gloriosa que até os anjos ficam arrepiados ao vê-la. Considerando o que ele fez até agora, essa é uma criação que planejo ver.)



1 Gênesis 1, o grifo é meu.

2 Hebreus 1.1,2, o grifo é meu.













ESTÁ CONSUMADO

"Está consumado." João 19.30.



Há vários anos atrás, Paul Simon e Art Garfunkel nos encantaram com uma canção de um menino pobre que foi para Nova Iorque em sonho e caiu vítima da vida cruel da cidade. Sem dinheiro, tendo apenas estranhos como amigos, ele passava os dias "escondido, procurando os lugares mais pobres onde os mendigos vão, buscando pontos que só eles conhe¬cem".1

É fácil imaginar esse jovenzinho de rosto sujo e roupas velhas, procurando trabalho e não encontran-do. Ele se arrasta pelas calçadas, lutando contra o frio e sonhando em ir para algum lugar "onde os invernos da cidade de Nova Iorque não me façam sangrar, levando-me para casa".

O garoto pensa em desistir. Em voltar para sua cidade. Desistir— algo que nunca pensou que pudes¬se fazer.

Mas no momento em que pega a toalha para atirá-la ao ringue, encontra um boxeador. Lembra-se destas palavras?

No espaço vazio se acha um lutador profissional, levando com ele cada golpe que o fez sofrer ou que o cortou até que gritasse de ira e vergonha

— "Vou embora, vou embora!" mas o lutador permanece mesmo assim. "O lutador permanece." Existe algo magnético nessa frase. Ela soa autêntica.

Os que permanecem como o lutador são uma espécie rara. Não quero dizer necessariamente vencer, mas apenas permanecer. Ficar agarrado ali. Termi¬nar. Não ir embora até que seja feito. Mas infelizmen¬te muitos poucos de nós fazem isso. Nossa tendência humana é desistir cedo demais. Nossa inclinação é parar antes de cruzar a linha de chegada.

Nossa incapacidade de terminar o que começamos é vista nas menores coisas:

Um jardim com metade da grama cortada.

Um livro lido pela metade.

Cartas começadas, mas inacabadas.

Um regime posto de lado.

Um carro sobre cavaletes. Ou se mostra nos pontos penosos da vida:

Uma criança abandonada.

Uma fé vacilante.

A pessoa que muda sempre de emprego.

Um casamento falido.

Um mundo não evangelizado. Estou tocando em algumas feridas abertas? Há qualquer possibilidade de estar me dirigindo a alguém que esteja considerando desistir? Se estou, quero encorajar você a permanecer. Quero encorajá-lo a lembrar a determinação de Jesus na cruz.

Jesus não desistiu. Não pense, porém, nem por um minuto, que não foi tentado a fazê-lo. Observe como ele estremece ao ouvir seus apóstolos caluniarem e discutirem. Olhe para ele quando chora junto ao túmulo de Lázaro ou quando se lamenta ao agarrar-se ao solo de Getsêmani.

Ele jamais quis desistir? Claro que sim!

Essa a razão pela qual suas palavras são tão esplêndidas.

"Está consumado."

Pare e ouça. Você pode imaginar o grito da cruz? O céu está escuro. As outras duas vítimas gemem. As bocas zombeteiras se calaram. Talvez haja trovões. Talvez choro. Talvez silêncio. Jesus inala então pro-fundamente, empurra os pés sobre o prego romano e grita: "Está consumado!"

O que estava consumado?

O plano da redenção do homem, longo como a história, estava consumado. A mensagem de Deus para o homem havia terminado. As palavras de Jesus como homem na terra não mais se repetiriam. A tarefa de escolher e treinar embaixadores terminara. O trabalho estava terminado. A canção fora cantada. O sangue derramado. O sacrifício feito. O aguilhâo da morte fora removido. Tudo acabara.

Um grito de derrota? Dificilmente. Se as suas mãos não tivessem sido pregadas, ouso dizer que um punho triunfante teria sido levantado para o céu escuro. Não, não foi um grito de desespero. Mas de realização. Um grito de vitória, de cumprimento. Também um grito de alívio.

O lutador permaneceu. E agradecemos por tê-lo feito. Graças a Deus que Ele suportou.

Você está prestes a desistir? Não faça isso. Está desanimado como pai? Fique firme. Está cansado de fazer o bem? Faça apenas um pouco mais. Está pessimista em relação a seu emprego? Arregace as mangas e persevere. Não existe comunicação em seu casamento? Dê-lhe mais uma injeção. Não consegue resistir às tentações. Aceite o perdão de Deus e continue em frente. Seu dia está cheio de tristeza e desapontamentos? Seus amanhãs estão-se transfor-mando em "nuncas"? A esperança é uma palavra esquecida?

Lembre-se, quem persevera não é aquele que não apresenta ferimentos nem está cansado. Pelo contra¬rio, ele, como o lutador de boxe, está cheio de cicatrizes e sangrando. Estas palavras foram atribuí-das a Madre Teresa: "Deus não nos chamou para ser bem-sucedidos, mas fiéis." O lutador, como nosso Mestre, foi traspassado e está cheio de dores. Ele, como Paulo, pode ter sido até algemado e açoitado. Mas permanece, persevera.

A Terra Prometida, diz Jesus, aguarda os que perseveram.3 Ela não é apenas para aqueles que alcançam a vitória ou bebem champanhe. Não, de modo algum. A Terra Prometida é para aqueles que simplesmente permanecem até o fim.

Vamos perseverar.

Ouçam este coro de versículos destinados a dar-nos poder para manter-nos firmes:

Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança.4

Por isso restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os vossos pés, para que não se extravie o que é manco, antes seja curado.5

E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se nâo desfalecermos.6

Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.7

Bem-aventurado o homem que suporta com per-severança a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam.8

Obrigado, Paul Simon. Obrigado, apóstolo Pau¬lo. Obrigado, apóstolo Tiago. Mas, obrigado mais que tudo ao Senhor Jesus, por nos ensinar a perseverar, a nos manter firmes e, no final, a terminar.



1 "The Boxer" por Paul Simon (c) 1968.

2 Ibid.

3 Mateus 10.22.

4 Tiago 1.2,3.

5 Hebreus 12.12,13.

6 Gálatas 6.9.

7 2 Timóteo 4.7,8. *

8 Tiago 1.12.





























LEVE-ME PARA CASA

"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito." Lucas 23.46.



Se fosse uma guerra — este seria o resultado.

Se fosse uma sinfonia — este seria o segundo entre a nota final e o primeiro aplauso. Se fosse uma viagem — seria a vista do lar. Se fosse uma tempestade — seria o sol, atravessando as nuvens.

Mas não era. Era um Messias. E este era um suspiro de alegria. "Pai!" (A voz é rouca.)

A voz que chamou os mortos para que se levantassem, a voz que ensinou os que tinham disposição, a voz que gritou para Deus, diz agora, "Pai!"

"Pai".

Os dois são de novo um.

O abandonado foi encontrado.

A divisão apagada. "Pai." Ele sorri fracamente. "Tudo acabou."

Os abutres de Satanás foram enxotados. Os demônios do inferno feito prisioneiros. A morte foi vencida. O sol saiu.

O Filho venceu. Está consumado.

Um anjo suspira. Uma estrela enxuga uma lágrima. "Leve-me para casa." Leve-o, sim, para casa. Leve este príncipe para o seu rei Este filho a seu pai Este peregrino ao seu lar

(Ele merece um descanso.) "Leve-me para casa."

Venham dez mil anjos! Venham e levem este trovador ferido para o berço dos braços do Pai! Adeus criança da mangedoura. Bendito seja o embaixador santo. Vá para casa matador da morte. Descanse bem, soldado valente. A batalha acabou.











































































PARTE II





A CRUZ:

SEU TESTEMUNHO











QUEM TERIA ACREDITADO?



É uma manhã de sexta-feira. As notícias correm pelas ruas de Jerusalém como um incêndio veloz na mata seca. "O nazareno está sendo executado!" Des¬de a Porta de Salomão até a Porta de Ouro o povo transmite o boato. "Você ouviu? Eles apanharam o galileu." "Eu sabia que ele ia passar dos limites." "Eles o apanharam? Não acredito!" "Dizem que um dos seus próprios homens o entregou."

Nicodemos está prestes a ausentar-se, sem per-missão.

As sepulturas estão quase se abrindo.

Um terremoto está para sacudir a cidade.

As cortinas do templo vão logo rasgar-se em duas.

Choque, surpresa, confusão. Alguns choram. Outros sorriem. Alguns poucos sobem a montanha para observar o espetáculo. Ou¬tros se irritam pelo fato da santidade da Páscoa estar sendo violada por um punhado de ativistas sociais. Alguém pergunta em voz alta se esse é o mesmo homem que foi homenageado poucos dias antes sobre um tapete de folhas de palmeira. "Muita coisa pode acontecer em sete dias", comenta ele.

Muita coisa pode acontecer num só dia.

Pergunte a Maria. Quem poderia ter convencido essa mãe no dia anterior que o dia de hoje iria encontrá-la a poucos metros do corpo ferido de seu filho? E quem poderia ter convencido João na terça-feira que 24 horas mais tarde iria ungir o cadáver de seu herói? E Pilatos? Quem o convenceria de que estava prestes a julgar o Filho de Deus!

Muita coisa pode acontecer em vinte e quatro horas.

Pedro pode dizer-lhe isso. Se você tivesse afirmado a esse discípulo orgulhoso e dedicado que esta manhã o encontraria no auge da culpa e da vergonha, ele teria proclamado a sua lealdade. Ou os outros dez apóstolos poderão contar-lhe. Para eles, as mesmas 24 horas haviam produzido vaidade e traição. E Judas... 6, pobre Judas! Ontem se mostrava decidido e desa¬fiante. Nesta manhã está morto com sua própria cinta. Seu corpo dependurado esconde o sol matinal.

Ninguém ficou intocado. Ninguém.

A imensidade da execução do Nazareno torna impossível ignorá-la. Vê as mulheres discutindo na esquina? Pode estar certo de que o assunto é o Nazareno. Aquelas duas senhoras no mercado? Estão dando sua opinião sobre o Messias autoproclamado. Os incontáveis peregrinos que chegam a Jerusalém para a Páscoa? Irão para casa com uma história fascinante de "um professor que foi ressuscitado dentre os mortos". Cada pessoa tem sua opinião. Cada um escolhe um lado. Nâo se pode ficar neutro numa questão como essa. Apatia? Não desta vez. Ê um lado ou outro. Todos têm de escolher.

E foi isso que fizeram.

Para cada Caifás astucioso havia um Nicodemos ousado. Para cada Herodes cínico um Pilatos inquiri-dor. Para cada ladrão havia um que procurava a verdade. Para cada Judas traidor havia um João fiel.

A crucificação continha um elemento que fazia cada testemunha afastar-se dela ou dirigir-se a ela. Ela atraía e repelia simultaneamente.

Hoje, dois mil anos mais tarde, o mesmo é verda-de. É a linha divisória. É a Divisão Continental. É a Normandia. E você está de um ou de outro lado. Uma escolha é exigida. Podemos fazer o que quisermos com a cruz. Podemos examinar a sua história. Estudar a sua teologia. Refletir sobre as suas profecias. Todavia há algo que não podemos fazer, afastar-nos dela com neutralidade. Ninguém tem permissão para ficar em cima do muro. A cruz, em seu esplendor absurdo, não admite isso. Esse é um luxo que Deus, em sua tre¬menda misericórdia, não permite.

De que lado você está?































ROSTOS NA MULTIDÃO



Dois tipos de pessoas foram tocados pela cruz: os tocados deliberadamente e os tocados por acaso. Entre estes últimos, são contadas histórias impressio-nantes.



I.

A de Malco, por exemplo. Um servo do sumo sacerdote, ele estava trabalhando no Jardim. Todavia, essa busca de rotina teria sido a sua última se não tivesse sido rápido em desviar-se. As tochas ilumina-ram apenas o suficiente para que visse o brilhar da espada e Malco inclinou-se para trás o bastante para salvar seu pescoço, mas não a sua orelha. Pedro foi censurado e Malco recebeu um toque que o curou. Assim o incidente passou à história.

História, isto é, para todos, menos Malco. Se não fosse pela mancha de sangue em seu manto, ele poderia ter acordado na manhã seguinte falando sobre um sonho maluco que tivera. Alguns acreditam que Malco fez parte mais tarde dos crentes de Jeru¬salém. Não sabemos ao certo. Mas temos certeza de uma coisa: a partir daquela noite, sempre que Malco ouvia as pessoas falarem do carpinteiro que ressuscitou dentre os mortos, ele não zombava. De jeito algum; ele tocava no lobo da orelha e sabia que isso era bem possível.



II.

Aconteceu depressa demais. Num minuto Barra-bás estava na cela da morte, com os pés batendo na parede, e no seguinte foi solto; piscando os olhos por causa do sol brilhante.

"Você está livre."

Barrabás coçou a barba. "O quê?"

"Você está livre. Eles ficaram com o Nazareno em seu lugar."

Barrabás tem sido muitas vezes comparado com a humanidade e isso é certo. De muitas maneiras ele nos representa: um prisioneiro libertado porque alguém que jamais vira tomou o seu lugar.

Penso porém que Barrabás era provavelmente mais esperto que nós em um aspecto.

Quanto sabemos, ele aceitou sua repentina liber-dade pelo que era, um presente não merecido. Alguém lhe atirou um salva-vidas e ele agarrou-o, sem per-guntas. Não é possível imaginá-lo usando alguns de nossos truques. Nós recebemos nosso presente gratui¬to e tentamos ganhá-lo, diagnosticá-lo, ou pagar por ele, em vez de dizer simplesmente "obrigado" e aceitá-lo.

Por mais irônico que pareça, uma das coisas mais difíceis é ser salvo pela graça. Há alguma coisa em nós que reage negativamente ao dom gracioso de Deus. Temos uma compulsão estranha que nos leva a criar leis, sistemas, regulamentos, para nos tornar "dignos" de nosso dom.

Por que agimos assim? A única razão em que posso pensar é o orgulho. Aceitar a graça significa aceitar a sua necessidade e a maioria das pessoas não gosta disso. Aceitar a graça também significa que o indivíduo compreende o seu desespero e quase nin-guém aprecia isso também.

Barrabás, porém, foi mais sabido. Perdido para sempre na cela da morte, ele não recuou ao ver-se libertado. Ele talvez não compreendesse a misericór¬dia e certamente não a merecia, mas não a recusou. Devemos procurar entender que nossa dificuldade não é muito diferente da de Barrabás. Nós também somos prisioneiros sem possibilidade de apelação. Mas porque alguns preferem continuar presos quando a porta da cela foi aberta é um mistério que vale a pena ser estudado.



III.

Se é verdade que um quadro pode conter mil palavras, existe então um centurião romano que pos¬sui um dicionário cheio delas. Tudo que viu foi Jesus sofrer. Ele jamais o ouviu pregar, curar, ou sequer o seguiu através das multidões. Jamais testemunhou quando fez calar o vento; só testemunhou a maneira como morreu. Mas isso foi tudo que esse soldado gasto pela ação do tempo necessitou para dar um passo gigantesco de fé. "Verdadeiramente este ho¬mem era justo."

Isso diz muito, não é? Diz que o pneu da fé se encontra com a estrada da realidade nas horas difí¬ceis. Diz que a autenticidade da nossa fé é revelada na dor. A sinceridade e o caráter se desvendam nos momentos de infelicidade. A fé é mais genuína, junto aos leitos de hospital, nas enfermarias para cance¬rosos e nos cemitérios, do que nas roupas bonitas dos domingos pela manhã ou nas escolas bíblicas de férias no verão.

Talvez fosse isso que movesse aquele velho e rabugento soldado. A serenidade no sofrimento é um testemunho estimulante. Qualquer pessoa pode fazer um sermão num monte cercado de margaridas. Mas só alguém de grande fé pode viver um sermão numa montanha de dor.



1 Lucas 23.47.

















































BEM... QUASE.



Quase. Essa é uma palavra triste no dicionário de qualquer um.

"Quase." Ela se compara com "Por pouco", "da próxima vez", "se apenas" e "aproximadamente". Ê uma palavra que fala de oportunidades perdidas, esforços abortados e ocasiões que se foram. É a menção honrosa, o campo adequado, o banco de reservas, o segundo no final da corrida, e biscoitos queimados.

Quase. Aquele que foi embora. A venda que deixou de ser feita. O jogo que quase foi ganho. Quase.

Quantas pessoas você conhece cuja reivindicação à fama é um quase?

"Você se lembra da ocasião em que eu quase fui escolhido como Empregado do Ano?"

"Dizem que ele quase chegou às finais do campeo¬nato!"

"Apanhei um peixe maior que eu! Bem... quase."

Desde que houve gente no mundo, existiram os quase. Indivíduos que quase venceram a luta, que quase escalaram a montanha, que quase encontraram o tesouro.

Um dos "quase" mais famosos é encontrado na Bíblia. Pilatos. Todavia, o que ele perdeu foi muito mais importante do que um peixe ou um prêmio.

Ele quase realizou o que teria sido o maior ato de misericórdia da história. Ele quase perdoou o Príncipe da Paz. Ele quase libertou o Filho de Deus. Ele quase optou por absolver o Cristo. Quase. Ele tinha o poder. Tinha a escolha. Usava o anel de sinete. A opção de libertar o Filho de Deus era sua... e ele fez isso... quase.

Quase. Quantas vezes essas feias cinco letras se introduzem nos epitáfios desesperados?

"Ele quase conseguiu."

"Ela quase decidiu não deixá-lo."

"Eles quase tentaram mais uma vez."

"Nós quase resolvemos o assunto."

"Ele quase se tornou cristão."

O que torna o quase uma palavra tão poderosa? Por que existe uma brecha tão grande entre "ele quase" e "ele fez"?

No caso de Pilatos, não precisamos procurar muito a resposta. É o comentário agudo do Dr. Lucas no capítulo 23 que fornece a razão. Vamos ler o versículo 22:

Então, pela terceira vez, (Pilatos) lhes pergun-tou: Que mal fez este? De fato nada achei contra ele para condená-lo à morte, portanto, depois de o castigar, soltá-lo-ei. Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E o seu clamor prevaleceu. (O grifo é meu.) Você tem razão, Lucas. A voz deles prevaleceu. E, como resultado, o orgulho de Pilatos prevaleceu. O medo de Pilatos prevaleceu. A fome de poder de Pilatos prevaleceu.

A voz "deles" não era a única, como sabe. Ha¬via pelo menos três outras que Pilatos poderia ter ouvido.

Ele poderia ter ouvido a voz de Jesus. Pilatos ficou frente a frente com ele. Cinco vezes adiou a decisão, esperando agradar o povo com regulamentos ou açoi¬tes.1 Jesus, porém, foi-lhe enviado de volta. Três vezes fitou aquele Nazareno que viera para revelar a verda¬de e que o constrangia. "O que é a verdade?" Pilatos perguntou retoricamente (ou seria sinceramente?). O silêncio de Jesus foi muito mais alto do que as exigên¬cias da multidão. Mas Pilatos não ouviu.

Ele poderia ter ouvido a voz da esposa. Ela supli¬cou-lhe que não se envolvesse com aquele "justo; porque hoje, em sonho, muito sofri por seu respei¬to."2 Temos de fazer uma pausa e imaginar a origem de um sonho que levasse uma senhora da alta socieda¬de chamar de justo um galileu do interior. Mas Pilatos não lhe deu atenção.

Ele poderia ter ouvido sua própria voz. É claro que tinha condições de perceber além da fachada. "Ana¬nias, Caifás, deixem de fingir, seus estúpidos. Sei quais são os seus interesses." Sua consciência com certeza o afligia. "Não há nada de errado com esse homem. Um pouco misterioso, talvez, mas isso não é razão para matá-lo."

Ele poderia ter ouvido outras vozes. Mas não o fez. Ele quase ouviu. Mas não quis. As vozes de Satanás prevaleceram.

A voz dele prevalece com freqüência. Você já ouviu seus galanteios?

"Uma vez não faz mal."

"Ele nunca vai saber."

"Outras pessoas fazem muito pior."

"Você pelo menos não está sendo hipócrita.'

A sua retórica ou racionalização jamais cessa. O pai da mentira afaga e seduz como um vendedor ambulante, prometendo a lua e entregando o desastre. "Suba sem medo. Prove o meu molho de prazer e cante minha canção de sensualidade. Afinal de con¬tas, quem sabe o que vai acontecer amanhã?"

Deus, por sua vez, jamais entra em competição com Satanás através de gritos. A verdade não precisa ser gritada. Ele permanece para sempre, suplicando em voz baixa, sempre presente. Nenhum truque, ne¬nhum espetáculo extra, nenhuma tentação, apenas prova concreta.

As reações das pessoas variam. Algumas imedia¬tamente se aproximam do vendedor de veneno. Ou¬tras se voltam para o Príncipe da Paz. A maioria de nós, porém, fica no meio, vacilando na extremidade da multidão que rodeia Satanás; mas, ao mesmo tempo, pairando nas proximidades, ao alcance da mensagem de Deus.

Pilatos aprendeu do modo mais difícil que esta posição de "quase" é suicida. As outras vozes vence¬rão. A sua sedução é forte demais. Seu chamado excessivamente fascinante. Pilatos aprendeu também que não existe inferno mais escuro que o do remorso. Lavar as mãos mil vezes não irá libertar você da culpa de uma oportunidade ignorada. Uma coisa é perdoar a si mesmo por algo que fez. Mas outra é tentar perdoar a si mesmo por algo que poderia ter feito e não fez.

Jesus sabia disso todo o tempo. Para o seu próprio bem ele exigiu e exige obediência absoluta. Ele jamais admitiu o "quase" em seu vocabulário. Você está com ele ou é contra ele. Com Jesus o "quase" precisa tornar-se "certamente". "Algumas vezes" se transfor¬ma em "sempre". "Se apenas" tem de ser "não obstante". E "da próxima vez" tem de mudar para "agora".

Não. Jesus jamais abriu espaço para o "quase" e continua não abrindo. "Quase" pode valer no jogo de malha e nas granadas de mão, mas para o Mestre ele tem o mesmo valor que "nunca".





1 Mateus 27.19.

2 Lucas 23.4,7,17,20,22.















































OS DEZ QUE FUGIRAM



Existe algo surpreendente no simples fato dos discípulos se terem reunido de novo. Quero dizer, eles deveriam sentir-se embaraçados. Enquanto ficaram se entreolhando naquele domingo, devem ter-se sentido um tanto tolos. Só duas noites atrás as coisas ficaram quentes e eles foram embora. Era como se alguém tivesse lançado uma chaleira de água fervendo num bando de gatos. Eles pularam assustados. Não para¬ram até ter-se escondido em cada buraco disponível em Jerusalém.

Você já imaginou o que os discípulos fizeram naquele fim de semana? Eu já. Fiquei pensando se qualquer um deles saiu às ruas ou pensou em ir para casa. Pensei também no que teriam dito quando as pessoas lhe faziam perguntas. "0... bem... veja vo¬cê..." Imaginei se ficaram juntos em pares, em peque¬nos grupos, ou sozinhos. Imaginei o que pensaram, o que sentiram.

"Tivemos de fugir! Eles teriam nos matado!"

"Não compreendo o que aconteceu."

"Eu o abandonei."

"Ele deveria ter-nos avisado!"

Me perguntei onde se achavam quando o céu escureceu. Me perguntei se estavam perto do templo quando a cortina se rasgou ou junto ao cemitério quando os sepulcros se abriram? Me perguntei se qualquer deles ousou voltar escondido à colina e ficar na beirada da multidão, observando as três silhuetas lá em cima.

Ninguém sabe. Aquelas horas foram deixadas sem explicação. Qualquer culpa, medo ou dúvida ficaram sem registro.

Mas sabemos uma coisa. Eles voltaram. Devagar. Um por um. Eles voltaram. Mateus, Natanael, André. Saíram do esconderijo. Das sombras. Tiago, Pedro, Tadeu. Talvez alguns já estivessem a caminho de casa, de volta à Galileia, mas fizeram meia volta e voltaram. Talvez outros tivessem desistido desgostosos, mas mudaram de idéia. Quem sabe outros ainda estives¬sem cheios de vergonha, mas mesmo assim voltaram.

Um por um, eles apareceram naquele mesmo cenáculo. (Devem ter ficado aliviados por ver outros já ali.)1

De todas as seções da cidade eles compareceram. Demasiado convictos para ir para casa, mas também confusos demais para continuar. Cada um com uma esperança desesperada de que tudo não passasse de um pesadelo ou uma brincadeira cruel. Cada um esperando encontrar algum tipo de alívio em meio aos outros. Eles voltaram. Alguma coisa em sua natureza recusava-se a permitir que desistissem. Alguma coisa naquelas palavras ditas pelo Mestre os fez reunir-se.

A posição em que se achavam era certamente difícil. Presos num terreno irregular entre o fracasso e o perdão. Suspensos em algum ponto entre "não posso crer que fiz isso" e "jamais farei isso de novo". Demasiado envergonhados para pedir perdão, todavia excessivamente leais para jogar tudo para o alto. Muito culpados para ser computados, mas fiéis de¬mais para serem descontados.

Penso que todos nós estivemos ali. Ouso dizer que todos nós testemunhamos nossas promessas construí¬das na areia serem varridas pelas ondas fortes do pânico e insegurança. Imagino que todos nós vimos nossas palavras de promessa e obediência rasgadas em tiras pela serra do medo e do pavor. Não encontrei ainda pessoa alguma que não tenha feito exatamente aquilo que prometeu não fazer. Todos nós andamos pelas ruas de Jerusalém.

Por que os discípulos voltaram? O que os fez retornar? Rumores da ressurreição? Isso tinha de fazer parte do todo. Os que andaram com Jesus haviam aprendido a esperar que ele fizesse o inespe¬rado. Eles o viram perdoar uma mulher que tivera cinco maridos, honrar um ladrão baixinho disfarçado de cobrador de impostos, e amar uma prostituta cuja reputação teria feito queimar as faces de Bonnie e Clyde. Eles o viram expulsar o diabo de alguns endemoninhados e colocar o temor de Deus em certos membros da igreja. As tradições haviam sido derruba¬das, os leprosos curados, os pecadores cantaram, os fariseus se enraiveceram, as multidões se comoveram.

Não é possível fazer as malas e ir para casa depois de três anos como esses.

Talvez ele tivesse realmente ressuscitado.

Mas foram mais que apenas rumores de um túmu¬lo vazio que os fez voltar. Havia algo em seus corações que não permitia que vivessem com a sua traição. Por mais responsáveis que fossem as suas desculpas, elas não eram suficientemente boas para apagar a última linha da história: eles haviam traído seu Mestre. Quando Jesus precisou deles, os discípulos fugiram. E precisavam agora enfrentar a vergonha.

Buscando o perdão, mas sem saber onde encon-trá-lo, eles retrocederam. Dirigiram-se para aquele mesmo cenáculo que continha as doces memórias do partir do pão e do vinho simbólico. O simples fato de terem voltado diz algo sobre o seu líder. Ele transmite alguma coisa sobre Jesus: aqueles que o conheciam melhor não podiam suportar o seu desagrado. Só havia duas opções para os primeiros doze — rendição ou suicídio. Todavia, o fato diz também algo sobre

Jesus: os que o conheciam melhor sabiam que em¬bora tivessem feito exatamente o que haviam pro-metido que não fariam, mesmo assim poderiam en-contrar perdão.

Eles então voltaram. Cada um com um álbum cheio de memórias e um fio de esperança. Cada um sabendo que tudo terminara, mas em seu coração esperando que o impossível aconteça de novo. "Se eu tivesse pelo menos mais uma oportunidade."

Ali ficaram eles sentados. A pouca conversa que flui focaliza os rumores de um túmulo vazio. Alguém suspira, alguém fecha a porta. Alguém mexe os pés.

Quando a melancolia aumenta, quando seus pen¬samentos ansiosos começam a cair vítima da lógica, quando alguém diz, "Como eu daria minha alma imortal para vê-lo uma vez mais", um rosto familiar surge através da parede.

Que final. Ou, melhor dito, que começo! Não perca a promessa revelada nesta história. Para aque¬les dentre nós, que deram meia volta e fugiram quando deveríamos ter ficado e lutado, esta passagem está repleta de esperança. Um coração arrependido é tudo que ele exige. Saia das sombras! Não se esconda mais! Um coração arrependido basta para chamar o próprio Filho de Deus, a fim de que atravesse nossas paredes de culpa e vergonha. Aquele que perdoou a seus seguidores, está pronto a perdoar todos nós. Tudo que precisamos fazer é voltar.

Não é de admirar que o chamem de Salvador.













































AQUELE QUE FICOU



Sempre achei que João era um sujeito que enca-rava a vida com simplicidade. "Certo é certo e errado é errado. As coisas não são tão complicadas quanto parecem."

Por exemplo, definir Jesus seria um desafio para o melhor dos escritores, mas João cuida da tarefa com uma analogia casual. O Messias, numa palavra, era "o Verbo". Uma mensagem ambulante. Uma carta de amor. Quer fosse um verbo ardente ou um adjetivo terno, ele era, muito simplesmente, uma palavra.

E a vida? Bem, a vida se divide em duas metades, luz e trevas. Se você está em uma não está na outra e vice-versa.

Próxima pergunta?

"O diabo é o pai da mentira e o Messias o pai da verdade. Deus é amor e você está do lado dele se também amar. De fato, a maior parte dos problemas é resolvida quando amamos uns aos outros."

Quando a teologia fica um pouco pesada, João algumas vezes faz uma pausa suficiente para oferecer uma palavra de explicação. Por causa deste modo paciente de contar a história, temos o comentário clássico: "Porque Deus amou ao mundo de tal manei¬ra que deu o seu Filho unigénito."

Gosto porém mais de João pela maneira como ele amou Jesus. Seu relacionamento com ele era também simples. Para João, Jesus era um bom amigo, de coração generoso e mente aberta. Um contador de histórias do tipo "era uma vez", com uma promessa para além do arco-íris.

Tem-se a impressão de que para João, Jesus era acima de tudo um companheiro leal. Messias? Sim. Filho de Deus? Claro. Operador de milagres? Isso também. Mas, acima de tudo Jesus era um colega. Alguém com quem você faz acampamento ou joga boliche ou conta as estrelas.

Simples. Para João, Jesus não era um tratado de ativismo social, nem uma permissão para explodir clínicas de aborto ou viver no deserto. Jesus era um amigo.

O que fazer então nesse caso? (Bem, isso é tam-bém muito simples.) Você fica ao lado dele.

Talvez seja essa a razão pela qual João foi o único dos doze que ficou junto à cruz. Ele foi para dizer adeus. Como admitiu, ainda não conseguira com-preender bem as coisas. Mas isso na verdade não tinha importância. No que lhe dizia respeito, seu amigo mais íntimo estava em dificuldade e ele queria ajudar.

"Você pode cuidar de minha mãe?"

"Claro. É para isso que são os amigos."

João nos ensina que a relação mais forte com Cristo não precisa ser necessariamente complicada. Ele nos ensina que as maiores tramas da lealdade não são tecidas através de teologias herméticas ou filoso¬fias inatacáveis, mas com amizades; amizades firmes, generosas, alegres.

Depois de testemunhar esse amor firme, ficamos com o desejo ardente de ter um desse jeito. Ficamos sentindo que se pudéssemos estar no lugar de alguém naquele dia, ocuparíamos o do jovem João e oferece-ríamos um sorriso de lealdade ao Senhor amado.































































A COLINA DO REMORSO



Enquanto Jesus estava subindo o monte do Calvá¬rio, Judas subia outro monte, o do remorso.

Ele andou sozinho pelo mesmo. Sua trilha estava coberta de rochas despedaçadas pela vergonha e dor. Seu cenário era tão árido quanto sua alma. Os espi¬nhos do remorso laceravam seus tornozelos e pernas. Os lábios que haviam beijado um rei se partiam de dor. Sobre os ombros levava um fardo que o fazia curvar-se — o próprio fracasso.

O motivo de Judas ter traído seu mestre não é realmente importante. Quer motivado pela ira ou cobiça, o resultado final foi o mesmo — remorso.

Há alguns anos atrás visitei o Supremo Tribunal. Enquanto me sentava na sala dos visitantes, observei o esplendor da cena. O juiz principal estava rodeado pelos seus colegas. Com suas becas honrosas represen-tavam o ponto máximo da justiça, os esforços de mentes incontáveis através de milhares de décadas. Ali se via o maior empenho do homem em tratar com suas próprias deficiências.

Como seria vão, pensei comigo mesmo, se me aproximasse do tribunal e pedisse perdão pelos meus erros. Perdão por responder mal à minha professora da quinta série. Perdão por ter sido desleal com meus amigos. Perdão por jurar "não vou" no domingo e dizer "eu vou" na segunda. Perdão pelas inúmeras horas que passei nas sarjetas da sociedade.

Seria inútil porque o juiz não poderia fazer nada. Talvez alguns dias na cadeia para apaziguar minha culpa, mas perdão? Ele não tinha condições para isso. Talvez seja esse o motivo por que tantos de nós passam horas na colina do remorso. Não descobrimos um meio de nos perdoar a nós mesmos.

Subimos então o monte. Cansados, com os cora-ções feridos lutando com os erros não solucionados. Suspiros de ansiedade. Lágrimas de frustração. Pala-vras de racionalização. Gemidos de dúvida. Para alguns a dor é superficial. Para outros a mágoa fica submersa, sepultada em um substrato de memórias tristes raramente tocadas. Pais, amantes, profissio¬nais. Alguns tentando esquecer, outros tentando lem¬brar, todos tentando enfrentar e superar. Andamos silenciosamente em fila indiana com pesos de culpa nas pernas. Paulo foi o homem que fez a pergunta que se encontra nos lábios de todos, "Quem me salvará do corpo desta morte?"1 No final da trilha há duas árvores. Uma delas é antiga e sem folhas. Ela está morta, as ainda tem vigor. Sua casca se foi, deixando a madeira macia exposta, esbranquiçada pelos anos. Os alhos e botões não brotam mais, só ramos nus se tiram do tronco. No mais forte desses ramos foi atado um nó de enforcar. Judas cuidou ali do seu fracasso.

Se Judas tivesse apenas olhado para a árvore pegada. Ela também está morta; sua madeira igual-ente macia. Mas não há qualquer nó atado ao galho principal. Não há mais morte nessa árvore. Uma foi o bastante. Uma morte por todas.

Aqueles dentre nós que também traíram Jesus, não censuram duramente a Judas por ter escolhido a ore que escolheu. Pensar que Jesus iria realmente tirar o fardo de nossos ombros e libertar nossas pernas depois de tudo o que fizemos a ele é difícil de acre¬ditar. De fato, é preciso tanta fé para crer que Jesus pode olhar para além de minha traição como para crer que ele ressuscitou dentre os mortos. Ambas as coisas são igualmente milagrosas.

Que par fazem essas duas árvores. A alguns passos da árvore do desespero encontramos a da esperança. A vida tão paradoxalmente próxima da morte. A bondade ao alcance do braço da escuridão. Um nó de enforcar e um salva-vidas balançando na mesma sombra.

Mas ali estão.

Não é possível deixar de ficar atônito com a improbabilidade de tudo isso. Por que Jesus fica na colina mais árida da vida e me aguarda com os braços estendidos, com suas mãos feridas pelos cravos? Uma "graça santa e insensata", como foi chamada.2 Um tipo de graça que não se enquadra na lógica. Mas penso que a graça não precisa ter lógica. Se tivesse, não seria graça.



1 Romanos 7.24.

2 Frederick Buechner, The Sacred Journey, p. 52, Harper and Row, 1982.



















O EVANGELHO DA

SEGUNDA OPORTUNIDADE



Era como a descoberta do prêmio numa caixinha de surpresas ou encontrar uma pequena pérola numa caixa de botões ou tropeçar numa nota de cem cruzados numa gaveta cheia de envelopes.

Era fácil passar ignorada. Só duas palavras. Eu sabia que já lera essa passagem centenas de vezes, mas jamais a vira. Talvez passasse por ela na alegria da ressurreição. Ou, desde que o relato de Marcos é sem dúvida o mais breve dos quatro, quem sabe eu apenas não prestei muita atenção. Ou, provavelmente por encontrar-se no último capítulo do evangelho, meus olhos cansados haviam sempre lido depressa demais para notar esta pequena frase.

Mas não vou mais ignorá-la. Está cercada de amarelo e sublinhada em vermelho. Você talvez quei¬ra fazer o mesmo. Veja em Marcos, capítulo 16. Leia os cinco primeiros versículos sobre a surpresa das mulheres quando encontraram a pedra removida. A seguir, deleite-se com esta belíssima frase dita pelo anjo: "Ele ressuscitou, não está mais aqui", mas não demore muito. Continue. Pegue seu lápis e aproveite esta jóia no versículo sete (preste atenção). O versículo diz: "Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia."

Você a viu? Leia de novo. (Desta vez eu grifei as palavras.)

"Mas, ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia."

Diga-me agora se não é um tesouro oculto.

Se me for permitido parafrasear as palavras, "Não fiquem aqui, vão dizer aos discípulos", uma pausa, depois um sorriso, "e especialmente a Pedro, que ele vai adiante de vocês para a Galileia".

Que linha. Ê como se todo o céu tivesse observado Pedro cair — e como se todo o céu quisesse ajudá-lo a levantar-se novamente. "Não deixem de contar a Pedro que ele não foi deixado de fora. Digam-lhe que uma falha não invalida ninguém."

Opa!

Não é de admirar que o chamem de evangelho da segunda oportunidade.

Não existem muitas segundas oportunidades no mundo hoje. Basta perguntar ao menino que não conseguiu fazer parte do time de futebol ou ao indivíduo que recebeu bilhete azul no emprego ou à mãe de três crianças que foi abandonada por causa de uma "coisinha bonita".

Não há muitas segundas oportunidades. Hoje em dia a coisa está mais para o lado do "agora ou nunca". "Não toleramos incompetência por aqui." "Ê preciso ser duro para sobreviver." "Não há muito espaço no alto." "Três faltas e você cai fora." "É um mundo cão!"

Jesus tem uma resposta simples para a nossa mania masoquista. "Ê um mundo cão?" diria ele. "Não viva então com os cães." Isso faz sentido não faz? Por que permitir que um punhado de outros fracassos lhe digam até que ponto você é um fracasso?

É claro que você pode ter uma segunda oportu-nidade.

Pergunte a Pedro.' Num minuto ele se sentiu menor que a barriga de uma cobra e no seguinte era o porco mais alto no coxo. Até os anjos queriam que aquele pescador aflito soubesse que nem tudo tinha acabado. A mensagem veio alta e clara da Sala do Trono celestial, através do correio divino. "Diga a Pedro que ele vai participar do jogo novamente."

Os que conhecem esses tipos de coisas dizem que o Evangelho de Marcos é na verdade a transcrição das notas e pensamentos ditados por Pedro. Se isto for verdade, foi o próprio Pedro quem incluiu essas duas palavras! E se forem realmente palavras suas, não posso senão imaginar que o velho pescador teve de enxugar uma lágrima e engolir um nó na garganta quando chegou a este ponto na história.

Não é todo dia que você consegue uma segunda oportunidade. Pedro deve ter sabido disso. Da próxima vez que viu Jesus ficou tão excitado que mal conseguiu vestir suas roupas antes de pular para a água fria do Mar da Galileia. Foi também o bastante para levar aquele galileu rústico a transmitir o evan¬gelho da segunda oportunidade por todo o caminho de Roma onde o mataram. Se você já pensou alguma vez sobre o que levaria um homem a dispor-se a aceitar a crucificação de cabeça para baixo, talvez saiba agora.

Não é todo dia que você encontra alguém que lhe dê uma segunda oportunidade — muito menos al-guém que lhe dê uma segunda oportunidade todos os dias.

Mas em Jesus, Pedro encontrou ambas as coisas.



































































DEIXE ESPAÇO PARA A MAGIA.



Tomé. Ele desafia uma descrição ordeira.

Oh, eu sei que nós o rotulamos. Em algum ponto de algum sermão alguém o chamou, "Tomé, o Des-confiado" e o apelido pegou. É verdade, ele duvidou. Só que foi além disso. Havia mais em sua pergunta do que simples falta de fé. Ela se deveu à sua falta de imaginação. Ê fácil ver isso em outras ocasiões e não apenas na história da ressurreição.

Considere, por exemplo, a ocasião em que Jesus falava eloqüentemente sobre a casa que iria preparar. Embora a linguagem figurada não fosse fácil para Tomé entender, ele estava fazendo o máximo. Pode¬mos ver seus olhos alargando-se ao tentar imaginar uma grande casa branca na Avenida São Tomé. E no momento em que Tomé está quase tendo uma visão completa, Jesus toma por certo: "E vós sabeis o caminho para onde eu vou." Tomé pisca uma ou duas vezes, olha em volta para os outros rostos estupefatos e depois explode com a maior ingenuidade, "Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o cami¬nho?"1 Tomé não se incomodava de dizer o que pen¬sava! Quando você não entender alguma coisa, diga isso! A imaginação dele só chegava até um certo ponto.

Houve também aquela vez que Jesus disse aos discípulos que iria estar com Lázaro, embora este já estivesse morto e sepultado. Tomé não podia imaginar ao que ele se referia, mas se queria voltar para onde estavam aqueles judeus que haviam tentado apedre-já-lo antes, Tomé não permitiria que fosse sozinho. Bateu então em seu braço confiável e declarou, "Va¬mos também nós para morrermos com ele!'2 Tomé passara a vida esperando o Messias e agora que Ele estava aqui, se dispunha a entregar sua vida por ele. Não muita imaginação, mas suficiente lealdade.

Talvez seja este traço de lealdade que explique por que Tomé não se encontrava no Cenáculo quando Jesus apareceu aos outros apóstolos. Veja você, acho que Tomé sentiu muito a morte de Jesus. Embora não compreendesse muito bem todas as metáforas que Jesus empregava às vezes, estava ainda disposto a ir até o fim com ele. Mas jamais esperara que o fim chegasse tão inesperada e prematuramente. Como resultado, Tomé ficou com um quebra-cabeças cheio de enigmas não respondidos.

De um lado, a idéia de um Jesus ressurreto era excessivamente artificial para o dogmático Tomé. Sua criatividade limitada não deixava espaço para a magia ou o deslumbramento. Além disso, não queria ficar novamente decepcionado. Um desapontamento era o bastante, obrigado. Todavia, por outro lado, sua lealdade o fez desejar crer. Enquanto houvesse a menor possibilidade de esperança, ele queria fazer parte da mesma.

A sua perturbação devia-se, portanto, à falta de imaginação combinada com uma lealdade inabalável. Ele era demasiado honesto para ser ingênuo, todavia leal demais a Jesus para ser infiel. No final, foi esta dedicação realista que o levou a pronunciar a agora famosa condição: "A não ser que eu veja as marcas dos pregos em suas mãos e coloque meus dedos onde eles estiveram, não acreditarei."3

Acho que se pode dizer que ele realmente duvi-dou. Mas foi uma dúvida diferente, que não nasceu da timidez ou desconfiança, mas da relutância em crer no impossível e um medo simples de ser magoado duas vezes.

A maioria de nós é assim, não é mesmo? Em nosso mundo de orçamentos, planos a longo prazo e compu¬tadores, não achamos difícil crer no incrível? A maioria de nós não se inclina a examinar a vida por trás de sobrancelhas franzidas e a andar com passos cautelosos? É difícil para nós imaginar que Deus pode surpreender-nos. Abrir espaço para alguns milagres hoje? Bem, não seria muito sensato pensar nisso.

Como resultado, nós, como Tomé, achamos difícil acreditar que Deus pode fazer exatamente aquilo que Ele faz melhor: substituir a morte pela vida. Nossas imaginações pouco férteis têm pouca esperança de que o impossível venha a acontecer. Como Tomé permitimos então que nossos sonhos sejam presa da dúvida.

Cometemos o mesmo erro de Tomé: esquecemos que "impossível" é uma das palavras favoritas de Deus.

E você? Como vai a sua imaginação? Qual foi a última vez em que você permitiu que seus sonhos superassem a sua lógica? Quando você imaginou pela última vez o que é inconcebível? Qual a última vez em que sonhou com um universo inteiro unido e em paz ou todos os crentes reunidos em comunhão? Qual a última vez que ousou sonhar com o dia em que toda boca será alimentada e todos os povos viverão em paz? Quando você sonhou pela última vez que toda criatu¬ra na terra ouvirá falar no Messias? Teria sido en¬quanto reivindicava a promessa de que Deus pode "fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedi¬mos, ou pensamos?"4

Embora a idéia fosse contrária a todo osso lógico em seu corpo, Tomé disse que ele creria se pudesse ter apenas uma pequena prova. E Jesus (que é sempre tão paciente com nossas dúvidas) deu a Tomé exatamente o que ele pediu. Ele estendeu mais uma vez as mãos. Como Tomé ficou surpreso! Ele fez um movimento repentino, prostrou-se e gritou: "Senhor meu e Deus meu!"5

Jesus deve ter sorrido.

Ele sabia que Tomé era um vencedor. Toda vez que você mistura a lealdade com um pouco de imagi-nação, obtém um homem de Deus. Um homem que morrerá pela verdade. Olhe para Tomé. A lenda conta que tomou um trem para a índia onde tiveram de matá-lo para que desistisse de falar de sua casa preparada no mundo vindouro e seu amigo que voltou dentre os mortos.





1 João 14.5.

2 João 11.16.

3 João 20.25, paráfrase do autor.

4 Efésios 3.20.

5 João 20.28.







UMA LUZ NA CAVERNA



Eles estão vindo como amigos, amigos secretos — mas amigos de qualquer jeito. "Você pode deitá-lo agora, soldado. Eu vou cuidar dele."

O sol da tarde está alto enquanto eles ficam de pé, em silêncio, no monte. Tudo parece mais quieto do que antes. A maior parte da multidão foi embora. Os dois ladrões ofegam e gemem, pendurados ali, prestes a morrer. Um soldado encosta uma escada na árvore do centro, sobe nela e remove a estaca que prende a viga de apoio da cruz. Dois dos soldados, contentes ao ver o fim do dia de trabalho, ajudam na tarefa pesada de colocar a cruz de cipreste e o corpo no chão.

"Cuidado agora", diz José.

Os pregos de 12 cm são retirados da madeira dura, libertando as mãos frouxas. O corpo que revestia o Salvador é levantado e colocado sobre uma rocha grande.

"Ele é todo seu", diz a sentinela. A cruz é posta de lado, para ser levada em seguida ao depósito até a próxima requisição.

Os dois não estão acostumados a este tipo de trabalho. Mas suas mãos se movem rapidamente, cumprindo a tarefa.

José de Arimatéia se ajoelha por trás da cabeça de

Jesus e enxuga com ternura a face ferida. Com um pano macio e molhado ele limpa o sangue que escor¬reu no jardim, devido aos açoites e à coroa de espi¬nhos. Feito isto, ele fecha os olhos bem fechados.

Nicodemos desenrola os lençóis de linho levados e os coloca na rocha ao lado do corpo. Os dois líderes judeus levantam o cadáver sem vida de Jesus e o põem sobre os lençóis. Partes do corpo sao agora ungidas com especiarias perfumadas. Ao tocar as faces do Mestre com aloés, Nicodemos não consegue conter a emoção. Suas lágrimas caem sobre o rosto do Rei crucificado. Ele faz uma pausa para enxugar outra. O judeu de meia-idade olha tristemente para o jovem galileu.

Ê um tanto irônico que o sepultamento de Jesus fosse conduzido, não por aqueles que se gabaram que jamais o deixariam, mas por dois membros do Siné¬drio, dois representantes do grupo religioso que ma¬tou o Messias.

Todavia, de todos os que eram devedores daquele corpo sofrido, ninguém devia tanto quanto aqueles dois. Muitos tinham sido libertados dos abismos pro¬fundos da escravidão e doença. Muitos foram encon¬trados nos túneis mais escuros, túneis de perversidade e morte. Mas túnel algum jamais foi mais escuro do que aquele do qual esses dois homens foram res¬gatados.

O túnel da religião.

Não existe outro mais sombrio. Suas cavernas são muitas e seus abismos profundos. Seu desagradável mau cheiro subterrâneo é produto de boas intenções. Seu labirinto de canais está repleto de desorientados. Suas trilhas estão cobertas de odres de vinho e bebida derramada.

Você não desejaria levar uma fé incipiente para este túnel. As mentes jovens e inquisitivas logo se estragam na escuridão mortiça. As novas perspectivas são ignoradas a fim de proteger as frágeis tradições. A originalidade é desencorajada. A curiosidade sufoca¬da. As prioridades desconsideradas.

Cristo só teve palavras fortes de censura para os que habitam nas cavernas. Ele os chamou de "hi-pócritas". Atores sem Deus. Construtores de barreiras. Juízes inflexíveis. Podadores sem autorização. Deta-lhistas inúteis. "Guias cegos". "Sepulcros caiados". "Víboras." Bang! Bang! Bang! Jesus não tinha tempo para os que se especializavam em fazer da religião um deus da guerra e da fé uma corrida pedestre. Não lhes dava qualquer oportunidade.1

José e Nicodemos também estavam cansados. Ha¬viam experimentado tudo. Tinham visto as listas de regras e regulamentos. Observaram o povo tremer sob os fardos insuportáveis. Ouviram as discussões inter-mináveis sobre detalhes legalistas. Usaram as vesti-mentas e se sentaram nos lugares de honra, vendo a Palavra de Deus ser usada em vão. Puderam perceber que a religião se tornara uma muleta que aleija.

Eles queriam livrar-se de tudo isso.

O risco era grande. A alta sociedade de Jerusalém não aprovaria a atitude de dois de seus líderes re¬ligiosos sepultando um revolucionário. Mas para José e Nicodemos a escolha era óbvia. As histórias conta¬das por aquele jovem pregador de Nazaré continham uma verdade que jamais fora ouvida na caverna. E, além do mais, eles preferiam salvar suas almas do que suas peles.

Levantaram então vagarosamente o corpo e o leva¬ram para o túmulo novo. Ao fazerem isso, acenderam uma vela na caverna.

Supondo que esses dois homens estivessem obser¬vando o mundo religioso durante os últimos dois mil anos, eles teriam provavelmente descoberto que as coisas não mudaram tanto.

Existe ainda uma grande parte de mal vestindo as roupas da religião e usando a Bíblia como um malho. Ê ainda moda usar títulos sagrados e correntes santas. E continua sendo ainda verdade que é preciso encon¬trar fé apesar da igreja em lugar de na igreja.

Eles observaram também, no entanto, que no momento em que os religiosos ficam religiosos demais e os retos ficam retos demais, Deus encontra alguém na caverna que acende uma luz. Ela foi acesa por Lutero em Wittenburg, por Latimer em Londres e por Tyndale na Alemanha. John Knox soprou as brasas como um escravo das galés e Alexandre Campbell fez o mesmo como pregador.

Não é fácil acender uma vela numa caverna escu¬ra. Todavia, aqueles dentre nós cujas vidas foram iluminadas por causa desses homens corajosos são eternamente gratos. De todos os atos de esclareci-mento, não há dúvida qual foi o mais nobre.

"Você pode deixá-lo agora, soldado. Eu cuidarei dele."



1 Mateus 23









MENSAGEIROS EM MINIATURA



Antes de nos despedirmos dos que estavam pre-sentes na crucificação, tenho de apresentar mais alguém. Esta é uma apresentação muito especial.

Havia um grupo entre os espectadores naquele dia cujo papel era crítico. Eles não falavam muito, mas ali se achavam. Poucos os notaram, mas isso não sur-preende. A natureza deles é tão silenciosa, que no geral os ignoram. De fato, os escritores do evangelho dificilmente se referem a eles. Mas sabemos porque estavam ali. Tinham de estar. Havia um trabalho a ser feito.

É fato. Esse grupo fez mais do que testemunhar o drama divino: eles o expressaram. Eles o capturaram. Exibiram o desespero de Pedro, traíram a culpa de Pilatos e desvendaram a angústia de Judas. Transmi-tiram a mescla de sentimentos de João e traduziram a compaixão de Maria.

Seu principal papel, porém, tinha a ver com o Messias. Com a máxima delicadeza e ternura, ofe-receram alívio à sua dor e deram expressão aos seus desejos.

Quem estou descrevendo? Você pode ficar admi-rado.

Lágrimas.

Essas pequenas gotas de humanidade. Essas bolas de fluido, redondas, que caem de nossos olhos, escor¬regam pelas maçãs do rosto e se esparramam pelo chão de nossos corações. Elas estavam ali naquele dia. Em tais ocasiões estão quase sempre presentes. E devem estar, esse o seu trabalho. São mensageiros em miniatura; de plantão 24 horas por dia, como um substituto das palavras mutiladas. Elas saltam, escor-regam e se despejam pelo canto de nossas almas, levando consigo as mais profundas emoções que se apossam de nós. Elas descem pelas nossas faces anun-ciando desde a alegria mais preciosa até o mais som-brio desespero.

O princípio é simples; quando as palavras são mais vazias, as lágrimas são mais suficientes.

Uma mancha de lágrima numa carta diz muito mais do que todas as suas palavras em conjunto. Uma lágrima caindo em um caixão diz o que uma despe¬dida verbal jamais poderia fazer. O que suscita mais depressa a compaixão e o interesse da mãe do que uma lágrima no rosto de uma criança? O que dá mais consolo do que uma lágrima de simpatia na face de um amigo?

As palavras falharam no dia que o Salvador foi morto. Elas falharam miseravelmente. Que palavras poderiam ser pronunciadas? Que frases teriam possi-velmente expresso os sentimentos dos envolvidos?

Essa tarefa, meu amigo, foi deixada para as lágrimas.

O que você faz quando não encontra palavras? Quando todos os substantivos e verbos jazem vazios a seus pés, com o que você se comunica? Quando até mesmo as declarações mais sublimes tropeçam, o que você faz? Você é um dos afortunados que não se envergonha de permitir que uma lágrima se adiante? Você consegue ficar tão contente que seus olhos se enchem de lágrimas e sua garganta se fecha? Pode ser tão orgulhoso que suas pupilas se embaçam e sua visão escurece? Quando se entristece, você permite que suas lágrimas relaxem seu coração deprimido e desatem o nó em sua garganta?

Ou você muda o itinerário das lágrimas e só permite que elas se derramem por dentro?

Não são muitos os que sabem demonstrar seus sentimentos. Especialmente os homens. Podemos gri-tar, blasfemar e fumar, isso sim! Mas, lágrimas? "Isso é para os fracos e tímidos. Eu tenho um mundo a conquistar!"

Faríamos bem em parar e fazer um exame dos rostos manchados de lágrimas que aparecem junto à cruz.

Pedro. O pescador rude. Forte o bastante para puxar uma rede cheia de peixes. Valente para enfren-tar a mais violenta tempestade. O homem que horas antes havia tirado a espada contra toda a guarda romana. Mas agora olhe para ele. Chorando, não... se lamuriando. Agachado num canto com o rosto oculto nas mãos calosas. Um verdadeiro homem faria isso? Admitiria sua falta? Confessaria seu fracasso? Pediria perdão? Ou um homem de verdade reprimiria seus sentimentos... os justificaria... racionalizaria a situa-ção... manteria uma atitude firme? Pedro perdeu a sua virilidade? Nós sabemos que não, não é? Ele talvez seja agora menos do mundo, mas menos de Deus? De forma alguma.

E João, olhe para as suas lágrimas. Sua face inchada de tristeza enquanto fica ali de pé, com os olhos ao nível dos pés sangrentos do seu Mestre. Sua emoção denota falta de coragem? O seu desespero demonstra fraqueza?

E as lágrimas de Jesus. Elas surgiram no jardim. Estou certo que também apareceram na cruz. São um sinal de debilidade? Essas manchas em suas faces significam que não tinha fogo nas veias ou resolução em suas entranhas?

Claro que não.

O ponto é este. A questão não se concentra nas lágrimas, mas naquilo que representam. Elas repre-sentam o coração, o espírito e a alma da pessoa. Pôr cadeado e chave em suas emoções é sepultar uma parte de sua semelhança com Cristo!

Especialmente quando você chega ao Calvário.

Você não pode ir para a cruz só com sua cabeça, deixando o coração. As coisas não funcionam desse modo. O Calvário não é uma viagem mental. Não é um exercício do intelecto. Não é um cálculo divino ou um frio princípio teológico.

Ê uma hora de emoção que nos toca até o fundo do coração.

Não vá embora desanimado e com os olhos secos. Não endireite apenas a gravata e limpe a garganta. Não desça frio e calmo do Calvário.

Por favor... faça uma pausa. Olhe de novo.

São pregos que estão naquelas mãos.

Ê Deus naquela cruz.

Fomos nós que o colocamos ali.

Pedro sabia disso.João sabia disso. Maria sabia disso.

Fomos nós que o pusemos ali.

Eles sabiam que um alto preço estava sendo pago. Sabiam quem perfurara realmente o seu lado. Sabiam também de alguma forma que a história ia ser refeita.

Foi por isso que choraram.

Eles viram o Salvador.

Senhor Deus, que jamais sejamos tão "educados", tão "amadurecidos", tão "religiosos" que possamos contemplar sua paixão sem derramar lágrimas.



























































PARTE III





A CRUZ:

A SUA SABEDORIA

























VIVO



Estrada. Escuridão. Estrelas. Sombras. Quatro. Sandálias. Mantos. Silêncio. Suspense. Bosque. Arvo-res. Sozinho. Perguntas. Angústia. "Pai!" Suor. Deus. Homem. Deus-Homem. Prostrado. Sangue. "NÃO!" "Sim." Anjos. Consolo

Passos. Tochas. Vozes. Romanos. Surpresa. Espa-das. Beijo. Confusão. Traição. Temor. Corra! Prisão. Punhos. Marcha.

Pátio. Sacerdotes. Lâmpadas. Sinédrio. Caifás. Zombaria. Seda. Arrogância. Barba. Conspiração. Pés descalços. Corda. Calma. Empurrões. Pontapés. Anás. Indignação. Messias? Julgamento. Nazareno. Confiante. Pergunta. Resposta. Soco!

Pedro. "Eu?" Galo. Três vezes. Culpa.

Procedimentos. Corte. Rejeição. Processo. Cansa-do. Pálido. Testemunhas. Mentirosos. Inconsistentes. Silêncio.Olhares. "Blasfemador!" Ira. Espera. Ferido. Sujo. Fatigado. Guardas. Cuspidas. Venda nos olhos. Escárnio. Golpes. Fogo. Escurecer.

Nascer do sol. Dourado. Jerusalém. Templo. Pás-coa. Cordeiros. Cordeiro. Adoradores. Sacerdotes. Messias. Ouvir. Fraude. Prisioneiro. Espera. Ficar de pé. Mudança. Estratégia. "Pilatos!" Armadilha. Mur-múrios. Saída.

Excitação. Parada. Multidão. Aumento. Roma-nos. Pilatos. Toga. Aborrecido. Nervoso. Oficiais. Túnicas. Espadas. Silêncio. "Acusação?" "Blasfê¬mia." Indiferença. Ignora. (Mulher. Sonho.) Preocu¬pação. Entrevista. Lábios. Dor. Determinado. "Rei?" "Céu."'Verdade." "Verdade?" Sarcasmo. (Temor.) "Inocente!" Barulho. Vozes. "Galileu!" "Galileu?" "Herodes!"

9 da manhã. Pés em marcha. Palácio. Herodes. Raposa. Intrigante. Barrigudo. Coroa. Manto. Cetro. Saguão. Elegância. Silêncio. Manipular. Inútil. Vexa¬do. Insulto. Provocação. "Rei?'Manto. Teatral. Cí¬nico. Odioso. "Pilatos!"

Marcha. Vozerio. Prisioneiro. Silêncio. Pilatos. "Inocente!" Tumulto. "Barrabás!" Rebelião. Deses¬pero. Cristo. Desnudar. Anéis. Parede. Costas. Chi¬cote. Açoite. Castigo. Lágrima. Osso. Gemido. Carne. Ritmo. Silêncio. Chicote. Silêncio. Chicote. Silêncio. Chicote! Espinhos. Agudos. Cegueira. Riso. Motejo. Cetro. Bofetada. Governador. Perturbado (Quase). Olhos. Jesus. Decisão. Poder. Liberdade? Ameaças. Olhares. Gritos. Fraco. Bacia. Agua. Influenciados. Transigência. Sangue. Culpa.

Soldados. Ladrões. Trave da cruz. Ombro. Pesa-da. Trave. Pesada. Sol. Cambalear. Declive. Casas. Lojas. Faces. Lamentadores. Murmúrios. Peregrinos. Tropeção. Pavimentação de pedras. Exausto. Sem fôlego. Simão. Patético. Gólgota.

Caveira. Calvário. Cruzes. Execução. Morte. Meio-dia. Lágrimas. Observadores. Gemidos. Vinho. Nu. Ferido. Inchado. Viga mestra. Sinal. Chão. Pregos. Batidas. Batidas. Batidas. Traspassado. Contorcido. Sede. Terrível. Graça. Debater-se. Levantado. Monta-do. Pendurado. Suspenso. Espasmos. Suspiros. Sar-casmo. Esponja. Lágrimas. Provocações. Perdão. Da-dos. Jogo. Escuridão. Absurdo. Morte. Vida.

Dor. Paz.

Condenação. Promessa. Nenhum lugar. Algum lugar. Ele. Nós.

"Pai!" Ladrões. Paraíso. Lamentos. Choro. Atôni-to. "Mãe." Compaixão. Escuridão. "Deus meu!" Medo. Bode expiatório. Deserto. Vinagre. "Pai." Si¬lêncio. Suspiro. Morte. Alívio.

Terremoto. Cemitério. Túmulos. Corpos. Mistério. Cortina. Lança. Sangue. Agua. Linho. Tumba. Medo. Espera. Desespero. Pedra. Maria. Correr. Talvez? Pedro. João. Crença. Elucidação. Verdade. Humani¬dade. Vivo. Vivo. Vivo!

















































BRAÇOSABERTOS



Eles não são exatamente o que você chamaria uma lista de "Quem é Quem na Pureza e Santidade." De fato, alguns de seus gestos e atitudes poderiam fazer você pensar na multidão da noite de sábado na cadeia local. Os poucos halos existentes entre esse grupo desnorteado bem que poderiam tirar proveito de alguns aperfeiçoamentos e polidura. Todavia, por estranho que pareça, é a própria humanidade deles que os torna refrescantes. Eles são de tal forma refrescantes que se você algum dia precisar de uma lembrança da paciência de Deus, irá encontrá-la nessas pessoas. Se ficar imaginando como Deus pode¬ria possivelmente usar você para transformar o mun¬do, olhe para elas.

Quem são essas pessoas? As que Deus usou para mudar a história. Um punhado de pobretões e fracas-sados que descobriram esperança nos braços prover-bialmente abertos de Deus e não em seu desempenho pessoal.

Vamos começar com Abraão. Embora elogiado por Paulo pela sua fé, este Pai das Nações tinha suas fraquezas. Tinha uma língua mentirosa que não parava! Certa vez, a fim de salvar o pescoço, contou que Sara não era sua mulher mas sua irmã, uma meia-verdade.1 Depois disso, não passou muito tempo para que repetisse a mentira! "Disse Abraão de Sara, sua mulher: Ela é minha irmã."2 Duas vezes trocou sua integridade por sua segurança. Ê possível cons¬truir uma nação sobre esse tipo de fé? Deus pode. Deus tomou o que era bom, perdoou o que não prestava e usou o "velho língua bifurcada" para começar uma nação.

Outro nome que aparece é o de Moisés. Defini-damente um dos grandes da história. Mas até os 80 anos de idade parece que ele não iria passar de um príncipe de contos de fadas que se tornara um fora-da-lei. Você escolheria um assassino procurado para tirar um povo da escravidão? Você chamaria um fugitivo para entregar-lhe os Dez Mandamentos? Deus fez isso. E ele o chamou, quase inconcebívelmente, enquanto pastoreava as ovelhas no campo. Chamou o seu nome de uma sarça ardente. Amedron¬tou terrivelmente o velho Moisés! Ali, com os joelhos trementes e com as palavras "Quem, eu?" escritas por todo o rosto, Moisés concordou em voltar à arena.

E o que você diz de um indivíduo cuja sensua-lidade ficou tão grande que engravidou uma mulher, tentou convencer o marido de que o filho era dele, mandou matar o marido dela e depois continuou vivendo como se nada tivesse acontecido? Você pode-ria replicar que ele era um homem que agradava a Deus. O registro da vida de Davi deixou muito a desejar, mas seu espírito de arrependimento era in-discutível.

A seguir temos Jonas. O embaixador de Deus para Nínive. Jonas tinha porém outras idéias. Ele não queria ir para aquela cidade pagã. Subiu então em um outro barco enquanto Deus não estava olhando (ou pelo menos é isso que pensou). Deus colocou-o na barriga de um peixe a fim de fazê-lo cair em si. Mas nem o peixe conseguiu reter esse missionário muito tempo. Deu um bom arroto e fez Jonas voar sobre a rebentação das ondas e cair na praia, de olhos arrega-lados e arrependido. (O que serve para mostrar que não se pode manter um homem bom reprimido muito tempo.)

A história continua: O profeta Elias que ficou amuado; Salomão, o rei que sabia demais; Jacó, o negociante; Gômer, a prostituta; Sara, a mulher que riu de Deus. Uma história após outra, mostrando Deus fazendo uso do melhor do homem e vencendo o pior.

Até mesmo a genealogia de Jesus é temperada com um ou dois personagens duvidosos — a adúltera Tamar, a prostituta Raabe e Bate-Seba, que se incli-nava a tomar banho em lugares perigosos.

A lição é clara. Deus usou (e usa!) pessoas para transformar o mundo. Pessoas! E não santos ou super-homens ou gênios, mas pessoas. Trapaceiros, bajuladores e mentirosos — ele emprega todos. O que lhes falta em perfeição, Deus acrescenta em amor.

Jesus resumiu mais tarde o amor obstinado de Deus com uma parábola. Contou a respeito de um jovem que decidiu que a vida no campo era rotineira demais para o seu gosto. Com os bolsos cheios de dinheiro de sua herança, ele partiu a fim de procurar diversão. Em lugar disso encontrou ressacas, amigos falsos e filas à procura de emprego. Quando não suportava mais a vida de porco que estava levando, engoliu o orgulho, enfiou as mãos nos bolsos vazios e começou o longo caminho de volta para casa; ensaian-do enquanto andava o discurso que planejava fazer para o pai.

Mas jamais chegou a pronunciá-lo. Quando apa-receu no alto do morro, o pai que estivera aguardando no portão o viu. As palavras de desculpa do rapaz foram logo sufocadas pelas palavras de perdão do pai. E o corpo cansado do filho caiu nos braços abertos do pai.

Os mesmos braços que haviam acolhido Abraão, Moisés, Davi e Jonas o receberam. Nada de dedos espetados. Nada de punhos cerrados. Nada de "eu avisei!", tapas ou interrogatórios do tipo "Onde você esteve?" Nem braços cruzados. Nem olhos maldosos ou lábios pendentes. Nada disso. Apenas os braços doces e abertos. Se você jamais ficar imaginando como Deus pode usá-lo para fazer uma diferença no mundo, basta olhar para aqueles que ele já usou e se anime. Olhe para o perdão encontrado nesses braços abertos e se anime.

E, a propósito, esses braços jamais se abriram tão amplamente como na cruz romana. Um abraço de perdão oferecido para quem quer que se aproxime. Uma galinha reunindo seus pintainhos. Um pai rece-bendo o filho. Um redentor remindo o mundo.

Não é de admirar que o chamem de Salvador.



1 Gênesis 12.10-20.

2 Gênesis 20.2.









UM VENDEDOR AMBULANTE CHAMADO CONTENTAMENTO



Ahhh... uma hora de contentamento. Um mo-mento precioso de paz. Alguns minutos de relaxamen-to. Cada um de nós tem um cenário em que o con-tentamento faz uma visita.

Bem cedo de manhã enquanto o café está quente e todo mundo ainda dorme.

Tarde da noite enquanto você beija os olhos sonolentos de seu filho de seis anos.

Num barco no lago quando as memórias de uma vida boa estão bem vivas.

Na companhia de uma Bíblia bem usada, cheia de orelhas e até manchada de lágrimas.

Nos braços do cônjuge.

Num jantar festivo ou sentado junto a uma árvore de Natal.

Uma hora de contentamento. Uma hora em que a agenda cheia é esquecida e os esforços cessaram. Um hora em que o que temos supera o que desejamos. Uma hora em que compreendemos que uma vida inteira de trabalho e esforço não pode dar-nos o que a cruz nos deu em um dia — uma consciência pura e um novo começo.

Infelizmente, porém, em nossas jaulas construídas de horários, competições e olhares de lado, horas como essas são tão comuns quanto macacos de uma perna só. O contentamento em nosso mundo é um vendedor ambulante estranho, andando à toa, procu-rando uma casa, mas dificilmente encontrando uma porta aberta. Este velho vendedor se move devagar de casa em casa, batendo nas janelas, nas portas, ofe-recendo suas mercadorias: uma hora de paz, um sor-riso de aceitação, um suspiro de alívio. Mas o que vende quase nunca é aceito. Estamos ocupados de¬mais para ficar contentes. (O que é na verdade uma loucura, desde que a razão pela qual nos matamos hoje é por pensar que isso nos dará satisfação ama¬nhã.)

"Agora, não, obrigado. Tenho muito a fazer", respondemos. "Muitos sucessos a serem alcançados, muito dinheiro a ser poupado, muitas promoções a serem obtidas. E, além disso, se me mostrar contente, alguém pode pensar que perdi a ambição."

O vendedor chamado Contentamento vai então embora. Quando lhe perguntei por que tão poucas pessoas o acolhiam em suas casas, sua resposta me convenceu. "Meu preço é alto, você sabe. Meu custo é excessivo. Peço às pessoas que deixem de lado seus apontamentos, frustrações e ansiedades. Exijo que queimem os seus dias de 14 horas e noites de insónia. Seria de esperar que eu tivesse mais compradores." Ele coçou a barba e depois acrescentou pensativo: "Mas todos parecem estranhamente orgulhosos de suas úlceras e dores de cabeça."

Posso dizer algo um tanto pessoal? Gostaria de dar um testemunho. Um testemunho vivo. Estou aqui para contar-lhe que recebi este amigo barbado em minha sala esta manhã.

Não foi fácil.

Minha lista de ocupações estava na maior parte sem fazer. Minhas responsabilidades continuavam tão pesadas quanto antes. Chamados, cartas para escre¬ver, talões de cheques para verificar.

Mas aconteceu uma coisa engraçada quando esta¬va para entrar na corrida de ratos que me fez parar em ponto neutro. No momento em que enrolei as mangas da camisa, no momento em que o velho motor come¬çou a roncar, no instante em que eu começava a acumular vapor, minha filha pequena, Jenna, preci-sava de colo. Ela estava com dor de estômago. A mamãe tinha ido tomar banho e foi então preciso que o papai a segurasse.

Ela faz três semanas hoje. No começo tentei fazer as coisas com uma das mãos enquanto a segurava com a outra. Você está sorrindo. Já tentou isso também? Quando percebi que era impossível, compreendi ao mesmo tempo que não era absolutamente isso que desejava fazer.

Sentei-me e apertei sua barriguinha contra o peito. Ela começou a descontrair-se. Um grande suspiro soltou-se de seus pulmões. Seu choro virou risada. Escorregou pelo meu peito até que sua orelhinha ficou bem em cima do meu coração. Foi assim que seus braços ficaram flácidos de repente e ela começou a dormir.

O vendedor ambulante bateu bem nesse instante à minha porta.

Adeus compromissos. Vejo você mais tarde, roti-na. Voltem amanhã prazos inadiáveis... Olá, conten-tamento, entre.

Estamos agora aqui sentados. Contentamento, minha filha e eu. Caneta na mão, um caderno de apontamentos nas costas de Jenna. Ela jamais se lembrará deste momento e eu jamais o esquecerei. A doce fragrância de um instante capturado enche a sala. O sabor de uma oportunidade aproveitada adoça minha boca. O raio de sol de uma lição aprendida ilumina minha compreensão. Este é um momento que não foi embora.

As tarefas? Elas acabarão sendo feitas. Os telefo-nemas? Vão ser dados. As cartas? Serão escritas. E sabe o que mais? Tudo vai ser feito com um sorriso.

Não faço muito isso, mas vou começar a fazê-lo mais vezes. Estou pensando em dar a esse vendedor de rua uma chave de minha porta. "Por falar nisso, Con-tentamento, o que você pretende fazer esta tarde?"





































JUNTO DA CRUZ —MAS LONGE DE CRISTO



Houve um jogo de dados aos pés da cruz.

Imagine esta cena. Os soldados estão reunidos em círculo, com os olhos voltados para baixo. O crimino¬so acima deles foi esquecido. Eles jogam dados para ver quem ganha algumas roupas usadas. A túnica, o manto, as sandálias, tudo vai ser sorteado. Cada soldado arrisca sua sorte no chão duro, esperando aumentar seu guarda-roupa às custas de um carpin¬teiro morto na cruz.

Fico me perguntando como essa cena deve ter parecido a Jesus. Ao olhar para baixo, para além de seus pés sangrentos, vendo o círculo de jogadores, o que pensou? Que emoções sentiu? Deve ter ficado surpreso. Ali estavam alguns soldados comuns teste-munhando o evento mais incomum do mundo e nem sequer sabiam disso. No que se refere a eles, é apenas outra manhã de sexta-feira e ele não passa de outro criminoso. "Vamos, depressa; é minha vez!"

"Está bem, está bem — esta jogada é pelas sandá-lias."

Jogando dados para ganhar as coisas de Cristo. Cabeças e olhos baixos. A cruz esquecida.

O simbolismo é surpreendente. Você está perce-bendo?

Ele me faz pensar sobre nós. Os religiosos. Os que reivindicam a herança da cruz. Estou pensando em todos nós. Cada crente na terra. Os cheios de si. Os permissivos. Os estritos. Os simples. A igreja superior, a inferior. A "cheia do Espírito". Os milenaristas. Os evangélicos. Os políticos. Os místicos. Os cínicos. Roupas cerimoniais. Colarinhos. Ternos de três peças. Nascidos de novo.

Estou pensando em nós.

Estou pensando que não somos muito diferentes daqueles soldados. (Sinto dizer isso.)

Nós também jogamos ao pé da cruz. Competimos para obter membros. Brigamos para conseguir posi¬ção. Oferecemos juízos e condenações. Competição. Egoísmo. Ganho pessoal. Tudo está ali. Não gostamos do que o outro faz e pegamos então a sandália que nos coube, saindo arrufados.

Tão perto da madeira, mas tão longe do sangue.

Estamos tão próximos do acontecimento mais extraordinário do mundo, mas agimos como jogado¬res comuns reunidos em grupos que se provocam e brigam por causa de opiniões tolas.

Quantas horas de pregação foram gastas falando de coisas triviais? Quantas igrejas caíram em agonia por causa de detalhes? Quantos líderes selaram suas irritações favoritas, empunharam suas espadas de amargura e se lançaram na batalha contra irmãos sobre questões que não valem nem a pena discutir?

Tão perto da cruz mas tão longe de Cristo.

Nos especializamos em campanhas "eu estou cer¬to". Escrevemos livros sobre o que o outro faz de errado. Tiramos diploma nos mexericos e nos torna¬mos peritos em desvendar fraquezas. Nos dividimos em pequenos grupos e então, Deus não permita, nos dividimos novamente.

Outro nome. Outra doutrina. Outro "erro". Outra denominação. Outro jogo de pôquer. O Senhor deve ficar surpreso.

"Aqueles soldados egoístas", escarnecemos com os dedos na lapela. "Estavam tão próximos da cruz, mas no entanto tão distantes de Cristo." Todavia, somos assim tão diferentes? O número de nossas divisões é tão grande que não podemos ser cataloga-dos. Há tantos ramos que até os ramos têm outras ramificações!

Vejam só...

Nossas diferenças dividem tanto? Nossas opiniões são tão obstrutivas? Nossas paredes tão largas? É assim impossível encontrar uma causa comum?

"Que todos sejam um", Jesus orou.

Um. Não em grupos de dois mil. Mas um em Um. Uma igreja. Uma fé. Um Senhor. Não Batista, Meto¬dista ou Adventista. Mas apenas cristãos. Nenhuma denominação, ou hierarquia, ou tradições. Apenas Cristo.

Idealista demais? Impossível de alcançar? Não acho. Coisas mais difíceis foram feitas, você sabe. Por exemplo, uma vez numa árvore, um Criador deu a sua vida pela sua criação. Talvez tudo o que precisamos sejam alguns corações dispostos a seguir esse exem¬plo.

E você? Pode construir uma ponte? Lançar uma corda? Atravessar um abismo? Orar pela unidade? Pode ser o soldado que presta atenção, fica de pé e lembra o resto de nós, "Olhem, esse é Deus na cruz!"

A semelhança entre o jogo do soldado e o nosso dá medo. O que Jesus pensou? O que ele pensa hoje? O jogo de dados continua, bem no pé da cruz.



























































O NEVOEIRO DO CORAÇÃO PARTIDO



O nevoeiro do coração partido.

É um nevoeiro escuro que aprisiona furtivamente a alma e se recusa a ir embora. É uma neblina silenciosa que esconde o sol e chama as trevas. Ê uma nuvem pesada que não honra qualquer hora nem respeita quem quer que seja. Depressão, desânimo, desapontamento, dúvida... todos são companheiros desta presença temida.

O nevoeiro do coração partido desorienta a nossa vida. Ele torna difícil ver o caminho. Abaixe as suas luzes. Limpe o parabrisa. Ande mais devagar. Faça o que quiser, nada ajuda. Quando este nevoeiro nos rodeia, nossa visão fica bloqueada e o amanhã está para sempre distante. Quando esta escuridão ondula¬da nos envolve, as palavras mais sinceras de ajuda e esperança não passam de frases vazias.

Se você já foi traído por um amigo, sabe o que estou dizendo. Se já foi abandonado por um cônjuge ou um pai, já viu esse nevoeiro. Se já colocou uma pá de terra sobre o caixão de um ente querido ou ficou vigiando junto ao leito de alguém que ama, você reconhece também esta nuvem.

Se já esteve neste nevoeiro, ou está nele agora, pode estar certo de uma coisa — nao se encontra sozinho. Até o mais esperto dos capitães da marinha já perdeu o rumo ao aparecer essa nuvem indesejada. Como disse certo comediante: "Se os corações parti¬dos fossem anúncios, todos apareceríamos na televi¬são."

Faça um retrospecto dos últimos dois ou três meses. Quantos corações partidos encontrou? Quan¬tos espíritos feridos teve ocasião de observar? Quantas histórias de tragédias chegou a ler?

Minha própria reflexão é cautelosa: A mulher que perdeu o marido e o filho num terrível acidente automobilístico. A atraente mãe de três crianças que foi abando¬nada pelo cônjuge. O garoto atropelado e morto por um caminhão de lixo, quando saía do ônibus da escola. A mãe, que o esperava, testemunhou a tra-gédia.

Os pais que encontraram o filho adolescente morto na floresta atrás de sua casa. Ele se enforcara com o próprio cinto numa árvore. A lista continua indefinidamente. Tragédias nebu¬losas. Como cegam nossa visão e destroem os nossos sonhos. Esqueça todas as grandes esperanças de alcançar o mundo. Esqueça todos os planos de mudar a sociedade. Esqueça todas as aspirações de mover montanhas. Esqueça tudo isso. Só me ajude a atra¬vessar a noite.

O sofrimento do coração partido. Venha comigo assistir aquela que foi talvez a noite mais enevoada da história. A cena é muito simples, você vai reconhecê-la rapidamente. Um bosque de oliveiras retorcidas. O chão coberto de pedras gran¬des. Um muro baixo de pedras. Uma noite escura, muito escura.

Veja agora o quadro. Olhe atentamente através da folhagem sombria. Vê aquela pessoa? Vê aquela figura solitária? O que ele está fazendo? Deitado no chão. O rosto manchado de terra e lágrimas. Os punhos batendo no solo. Os olhos arregalados com o estupor do medo. O cabelo emaranhado por causa do suor salgado. Será aquilo sangue em sua testa? Esse é Jesus. Jesus no Jardim do Getsêmani. Você talvez tenha visto o retrato clássico de Cristo no jardim. Ajoelhado junto a uma grande rocha. Um alvo manto. Mãos pacificamente unidas em oração. Um olhar sereno em seu rosto. Um halo sobre a sua cabeça. Um raio de luz do céu, iluminando seu cabelo castanho-dourado.

Eu não sou artista, mas posso dizer-lhe algo. O homem que pintou esse quadro não usou o evangelho de Marcos como modelo. Veja o que Marcos escreveu sobre aquela noite penosa:

Então foram a um lugar chamado Getsêmani; ali chegados, disse Jesus a seus discípulos: Assentai-vos aqui enquanto eu vou orar. E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, come¬çou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra; e orava para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. E dizia: Aba, Pai, tudo te é possí¬vel, passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e, sim, o que tu queres. Vol¬tando, achou-os dormindo; e disse a Pedro: Simão, tu dormes? não pudeste vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Retirando-se de novo, orou repetindo as mesmas palavras. Voltando, achou-os outra vez dormindo, porque os seus olhos estavam pesados; e não sabiam o que lhe res¬ponder. E veio pela terceira vez e disse-lhes: Ainda dormis e repousais! Basta! chegou a hora; o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Eis que o traidor se aproxima!1

Observe estas frases: "Começou a sentir-se toma-do de pavor e de angústia." "Minha alma está profundamente triste." "E, adiantando-se um pouco, prostrou-se em terra."

Este parece um quadro de um Jesus santo, repou¬sando na palma de Deus? De modo algum. Marcos usou tinta preta para descrever esta cena. Vemos um Jesus agonizante, lutando e se esforçando. Vemos um "homem de dores".2 Vemos um homem enfrentando o medo, em luta com os compromissos e ansiando por alívio.

Vemos Jesus no nevoeiro de um coração partido.

O escritor de Hebreus iria dizer mais tarde, "Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte".3

Que descrição! Jesus sofrendo. Jesus às portas do medo. Jesus não está revestido de santidade, mas de humanidade.

Da próxima vez que o nevoeiro o envolver, você faria bem em lembrar-se de Jesus no jardim. Da próxima vez em que pensar que ninguém compreen¬de, releia o capítulo 14 de Marcos. Da próxima vez que a autopiedade o convencer de que ninguém se importa, vá visitar o Getsêmani. E da próxima vez em que ficar imaginando se Deus realmente percebe a dor que prevalece neste poeirento planeta, ouça-o supli¬cando entre as árvores retorcidas.

Este é o meu ponto. Ver Deus desse modo faz maravilhas em relação ao nosso próprio sofrimento. Deus jamais foi tão humano quanto nessa hora. Deus jamais esteve mais próximo de nós do que quando sofreu. A Encarnação jamais foi tão cumprida quanto no jardim.

Como resultado, o tempo passado no nevoeiro da dor poderia ser o maior dom de Deus. Poderia ser a hora em que finalmente vemos nosso Criador. É verdade que no sofrimento Deus se assemelha mais ao homem; talvez em nosso sofrimento possamos ver a Deus como nunca antes.

Da próxima vez em que você for chamado para sofrer, observe. Talvez esse seja o ponto mais próximo em que vai estar de Deus. Preste muita atenção. Pode muito bem ser que a mão que se estende para guiá-lo para fora do nevoeiro esteja traspassada.





1 Marcos 14.32-42.

2 Isaías 53.3.

3 Hebreus 5.7, o grifo é meu.



















PÃO, SENHOR?



Ele não podia ter mais que seis anos. Rosto sujo, descalço, camiseta rasgada, cabelo emaranhado. Não era muito diferente das outras centenas de órfãos das ruas que vagam pelo Rio de Janeiro.

Eu estava me encaminhando a um café das proxi¬midades, quando se aproximou de mim. Com os pensamentos fixos na tarefa que acabara de terminar e na classe que ia ensinar a seguir, mal senti a batidinha repetida em minha mão. Parei e voltei-me. Não vendo ninguém, continuei andando. Mal tinha dado porém alguns passos quando senti outra batida insistente. Desta vez parei e olhei para baixo. Ali estava ele. Seus olhos pareciam mais brancos por causa das faces imundas e cabelo cor de carvão.

"Pão, Senhor?"

No Brasil a gente tem oportunidades diárias de comprar uma barra de chocolate ou um sanduíche desses pequenos párias. Ê o mínimo que se pode fazer. Disse-lhe que viesse comigo e entramos no café. "Café para mim e alguma coisa gostosa para este meu amiguinho." O garoto correu para o balcão de doces e fez a sua escolha. Geralmente esses meninos pegam o alimento e correm de volta para a rua sem uma palavra. Mas esse me surpreendeu.

O café tinha um balcão enorme: um lado para o café e o outro para as guloseimas. Enquanto o garoto fazia sua escolha eu me adiantei para o outro lado do balcão e comecei a tomar meu café. No momento em que procurava ajustar de novo meus pensamentos, eu o vi outra vez. Ele estava na entrada do café, com o pão na mão, apoiado nas pontas dos pés e olhando para as pessoas. "O que estará fazendo?" pensei.

Ele me viu então e correu para mim. Chegou e ficou à minha frente, com os olhos ao nível de minha cintura. O pequeno órfão brasileiro olhou para o mis-sionário americano grandalhão, deu um sorriso que teria roubado seu coração e disse, "Obrigado". De¬pois disso, coçando nervosamente o tornozelo com o dedo grande do pé, acrescentou, "Muito obrigado".

De repente senti vontade de comprar o restaurante inteiro para ele.

Mas antes que pudesse responder, ele voltou-se e saiu correndo porta afora.

Enquanto escrevo isto, continuo no balcão do café, meu café está frio e fiquei atrasado para a aula. Mas continuo com a sensação que tive há meia hora atrás. E penso nesta questão: Se fico tão comovido com um órfão da rua que agradece por um pedaço de pão, quanto mais Deus se comove quando faço uma pausa para agradecer-lhe — dizer realmente obrigado — por salvar a minha alma?





















CACHORRINHOS, BORBOLETAS E UM SALVADOR



Quando eu tinha dez anos de idade ganhei um filhote chamado Tina. Você teria ficado louco por ela. Tina era a mascote perfeita. Um filhote irresistível, com seu narizinho achatado de pequinês. Uma de suas orelhas ficava caída e a outra sempre de pé. Ela jamais se cansava de brincar, todavia, também não atrapalhava em nada.

A mãe de Tina morreu quando ela nasceu e eu tive então de criá-la. Alimentei-a com leite numa mama¬deira de boneca e costumava ir ver se estava bem aquecida à noite, às escondidas. Nunca me esquecerei da vez em que a levei para a cama comigo, a fim de vê-la brincar com meu travesseiro. Nós éramos um par engraçado. Meu primeiro contato com a arte de ser pai.

Certo dia fui ao quintal dar o jantar a Tina. Olhei em volta e a vi no canto junto à cerca. Ela tinha encurralado uma borboleta (o máximo que uma bor-boleta pode ser encurralada) e estava alegremente latindo e pulando, querendo pegar a borboleta com a boca. Divertido, fiquei algum tempo observando e depois chamei-a.

"Tina! Venha aqui, garota! É hora de comer!"

O que aconteceu em seguida me surpreendeu. Tina parou de brincar e olhou para mim. Mas em vez de vir correndo em minha direção, ela sentou-se nas patas de trás. Depois inclinou a cabeça na direção da borboleta, voltou a olhar-me, olhou a borboleta de novo e também para mim outra vez. Pela primeira vez em sua vida ela tinha de tomar uma decisão.

O "desejo" dela ansiava por perseguir a borboleta que a esperava provocativamente pairando no ar. Seu "dever" sabia que era sua obrigação obedecer ao dono. Uma luta clássica da vontade: uma guerra entre o "desejo" e o "dever". A mesma pergunta que enfrenta todo adulto desafiava agora minha masco-tinha.

E sabe o que ela fez? Correu atrás da borboleta! Pulando e latindo, ignorou meu chamado e perseguiu aquela tolinha até que voasse para o outro lado da cerca.

Foi então que a culpa surgiu.

Ela ficou parada junto à cerca por longo tempo, sentada nas pernas traseiras e olhando para o ar onde a borboleta desaparecera. Aos poucos a excitação da caçada foi-se apagando por causa da culpa da deso-bediência.

Ela voltou-se penosamente e andou ao encontro de seu proprietário. (Para ser sincero, eu estava um pouco zangado.) A cabeça de Tina estava baixa enquanto se arrastava tristemente através do quintal.

Pela primeira vez na vida ela sentiu-se culpada.

Transgredira o seu "dever" e cedera ao seu "que-rer". Meu coração porém se derreteu e chamei-a de novo pelo nome. Sentindo o perdão, Tina correu para mim. (Eu sempre fui um fraco.)

Talvez eu esteja exagerando um tanto. Não sei se um cão pode realmente sentir culpa ou não. Mas sei que o ser humano pode. E quer o pecado seja leve como caçar uma borboleta ou sério como dormir com a mulher de outro homem, os efeitos são os mesmos.

A culpa se introduz de mansinho e rouba toda alegria que pode ter entrado em nossos olhos. A confiança é substituída pela dúvida e a sinceridade afastada pela racionalização. A paz desaparece. A perturbação entra. No momento em que cessa o prazer da indulgência, começa a fome de alívio.

Nossa visão é curta e nossa vida míope tem agora um único objetivo — encontrar alívio para a nossa culpa. Ou, como perguntou Paulo por todos nós: "Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte?"1

Essa não é uma pergunta nova. Mal abrimos a Bíblia e já encontramos a humanidade enfrentando a culpa ou, mais freqüentemente, deixando de enfren-tá-la. A rebelião de Adão e Eva os levou à vergonha e a se ocultarem. A inveja de Caim levou ao assassinato e expulsão. Pouco tempo depois, toda raça humana estava contaminada. O mal se multiplicava e o povo ficou cada vez mais perverso. O coração do homem esfriou de tal modo que ele não mais buscou alívio para a sua consciência calejada. E na passagem mais terrível da Bíblia, Deus diz que se arrependeu de ter colocado o homem na face da terra.2

Tudo isto por causa da incapacidade do ser huma¬no de enfrentar ou solucionar a questão do pecado.

Se apenas tivéssemos um rim de culpa que filtrasse nossas falhas ou um apagador embutido que nos ajudasse a viver conosco mesmos. Mas não temos. De fato, o problema é exatamente esse.

O homem não pode enfrentar sozinho a culpa.

Quando Adão foi criado, ele não recebeu a capa-cidade de fazer isso. Por quê? Porque ele não foi feito para cometer erros. Mas ao cometê-los, não tinha meios de tratar com eles. Quando Deus foi procurá-lo para prestar-lhe ajuda, Adão cobriu sua nudez e se escondeu envergonhado.

O homem não pode resolver o problema da culpa por si mesmo. Ele precisa de ajuda externa. A fim de perdoar a si mesmo, ele necessita do perdão daquele a quem ofendeu. Todavia, o homem é indigno e não pode pedir a Deus que o perdoe.

Essa é portanto toda a razão da cruz.

A cruz fez o que os cordeiros sacrificados não podiam fazer. Ela apagou nossos pecados, não duran¬te um ano, mas por toda a eternidade. A cruz fez o que o homem não podia fazer. Ela nos concedeu o direito de falar com Deus, amá-lo e até mesmo viver com Ele.

Você não pode fazer isso sozinho. Não importa quanto serviços de adoração freqüente ou o número de boas obras que faça, a sua bondade é insuficiente. Você não pode ser suficientemente bom para merecer perdão. Nem você, nem eu, nem ninguém.

Essa a razão de existir culpa no mundo.

Esse o motivo de necessitarmos de um Salvador.

Eu não posso perdoar você pelos seus pecados, nem você pode perdoar-me pelos meus. Dois garotos numa poça de lama não podem limpar um ao outro. Eles precisam de alguém limpo. Alguém imaculado. Nós também.

Esse o motivo de necessitarmos de um Salvador.

O que a minha cachorrinha precisava é exatamen¬te o que você e eu precisamos — um mestre que estendesse a mão e dissesse, "Venha, tudo está bem". Não precisamos de um senhor que julgue nosso desempenho, se fosse assim todos falharíamos lamen-tavelmente. Tentar ir ao céu por nossa própria bonda-de é como querer alcançar a lua num raio de luar; uma idéia interessante, mas tente e veja o que aconte¬ce.

Ouça. Desista de tentar pagar sua própria culpa. Você não vai conseguir. Não há meios. Nem com uma garrafa de bebida ou uma freqüência exemplar na escola dominical. Sinto muito. Não me importo quão mau você seja. Não pode ser mau o suficiente para esquecer isso. E não importa quão bom você seja. Não pode ser suficientemente bom para superar esse sentimento.

Você precisa de um Salvador.





1 Romanos 7.24.

2 Gênesis 6.6.





















O TESTEMUNHO DE DEUS



Embora a fazendinha ficasse a apenas duas horas em quilômetros, achava-se há pelo menos um século de distância no tempo.

Meu amigo Sebastião me havia convidado para visitar sua cidade, Marecá, um lugarejo a cerca de 112 km do Rio de Janeiro. Ele era um operário de 26 anos que visitara nossa congregação e participava de um estudo bíblico. Com sua fala lenta, seu corpo magro e desajeitado, o rapaz não parecia mesmo pertencer à cidade. Ele era um pouco honesto demais, simples e de riso fácil, para ter quaisquer raízes na selva urbana.

Aproveitei a oportunidade para conhecer um pou¬co o interior do Brasil. O que eu não sabia, no entanto, é que estava prestes a aprender uma lição sobre a fé.

Podia sentir os músculos do pescoço relaxarem ao sairmos do Rio e sua guerra de trânsito poluído no espelho retrovisor. Meu pequeno sedan Volkswagen entrava e saía das estradinhas pitorescas que serpen-teavam pelas colinas. O cenário se parecia ao de Kentucky; pasto verde e rico, vales generosos, encos¬tas amigas pontilhadas pelo gado.

Logo saímos da estrada de quatro vias para outras de apenas duas; a seguir, depois de meia-dúzia de entradas à direita e à esquerda, nos achamos numa estradinha suja de uma só mão.

"No geral venho de ônibus", Sebastião explicou. "Tenho de fazer a pé este pedaço." Mas não era um "pedaço". Durante pelo menos mais seis quilômetros percorremos aquele caminho poeirento e pouco tran-sitado. Durante o processo passamos por um rapaz jovem puxando um burro que levava dois latões de leite. "Esse é meu primo", anunciou Sebastião. "Ele vem todas as madrugadas trazer leite fresco, logo que o sol nasce." A estradinha estreita nos levou através de um colorido variado: as árvores de eucalipto com seus troncos brancos sentavam-se como velas num bolo de pasto verde escuro. O céu brasileiro se mostra¬va de um azul brilhante e as colinas rústicas e vermelhas.

"Pare aqui" disse ele. Parei em frente de um grande portão de madeira suspenso entre dois mou¬rões de cerca. "Só um minuto e abro o portão."

Se eu achava estreita a estrada que acabáramos de percorrer, a que nos levou do portão até a casa era invisível. Eu fiquei pensando como precisava de um jipe enquanto pulávamos por sobre a relva, entráva-mos por baixo de arbustos, deslizávamos por sob as árvores e finalmente entramos numa clareira perto de uma velha casa de alvenaria.

O pai de Sebastião, Sr. José, nos esperava. Ele certamente não parecia ter os seus 70 ou mais anos. Com os olhos cobertos por um velho chapéu de palha, sorriu com a boca sem dentes para nós quando nos viu. Seu peito moreno e cintura fina eram um teste¬munho dos milhares de horas trabalhando com a enxada e plantando. Seus pés chatos e nus tinham a cor da terra e suas mãos eram ásperas e nodosas.

"Que bom que tenha vindo!" cumprimentou-me e pude sentir a sua sinceridade.

A casinha me fez pensar numas gravuras que vira dos Estados Unidos durante a época da Depressão.

Lanternas de querosene apagadas (não havia eletrici¬dade). Bacias de água para nos lavarmos (nao havia água corrente). Uma parede coberta com ferramentas bem usadas, pás, enxadas e garfos (nada de equipa¬mento moderno). A cozinha ficava num lugar separa¬do, junto à porta da frente da casa. Fiquei intrigado com o fogão. Era feito de barro duro, cozido, moldado numa peça longa e estreita, cerca de l,20m por 0,90m. Um recipiente ficava no meio para conter a lenha. Panelas com arroz e feijão tinham sido colocadas sobre o fogo. Me senti bem longe do Rio.

O Sr. José levou-me para um passeio pelo seu cantinho do mundo. Durante 37 anos ele lavrara e cuidara de seus dois acres. Era evidente que conhecia cada buraco e cada volta.

"Alimentei quatorze bocas com esta terra", sorriu ele, apalpando um pé de alface. "De onde você disse que é?"

"Dos Estados Unidos."

"O que está fazendo aqui?"

Expliquei um pouco o meu trabalho. Ele não res-pondeu, mas levou-me até um pequeno riacho onde sentou-se numa pedra e começou a despir-se.

"Vai tomar banho, pai?" perguntou Sebastião.

"Vou. Hoje é sábado."

"Bem, nós nos encontramos lá em casa então."

Sebastião me levou através de uma plantação de cana onde cortou um gomo, descascou-o e me deu um pedaço para comer. Voltamos para casa e nos sentamos à mesa de jantar do lado de fora. Os bancos estavam lisos com o uso constante, décadas a fio.

Nessa hora o Sr. José voltou, com calças limpas, sem chapéu e o cabelo molhado.

Embora não tivéssemos conversado senão durante meia hora, ele renovou a conversa exatamente onde a tínhamos deixado (era aparente que estivera pensan¬do).

"Um missionário, hein? Seu serviço deve ser fá-cil."

"Por quê?" perguntei.

"Eu não tenho dificuldade em crer em Deus. Quando vejo o que ele fez na minha fazendinha, ano após ano, é fácil crer." Ele deu outra risada com a boca desdentada e gritou para a mulher que trouxesse o feijão.

Enquanto voltávamos para a cidade, não pude deixar de pensar no Sr. José. Puxa, que vida tão simples! Nada de trânsito engarrafado, horários de vôo, ou longas filas. Bem longe da Bolsa de Valores, Imposto de Renda e hipotecas. Ignorando a teologia joanina, Martinho Lutero ou as evidências cristãs.

Pensei na sua fé, sua capacidade de crer e sua surpresa de que houvessem alguns que não pudessem fazer isso. Comparei essa fé com a de outros que conhecia e que achavam a maior dificuldade em crer: um estudante universitário, um rico comerciante no ramo de importação e exportação, um engenheiro. Como era grande a diferença entre José e os demais.

A fé que ele possuía estava arraigada nos milagres simples que presenciava todos os dias.

Uma pequena semente transformando-se em árvo¬re gigantesca.

Uma haste fina surgindo na terra.

Um arco-íris aparecendo em meio a uma nuvem tempestuosa.

Era fácil para ele crer. Posso ver por quê. Quem testemunha a exibição diária da majestade de Deus não acha absurdo o segredo da Páscoa. Quem depen¬de dos mistérios da natureza para seu sustento, não acha difícil depender de um Deus invisível para a sua salvação.

"A natureza", escreveu Jonathan Edwards, "é o maior evangelista de Deus".

"A fé", escreveu Paulo, "não se apoia na sabedo-ria humana, mas no poder de Deus".1

"O testemunho de Deus", escreveu Davi, "torna sábio os simples".2

O testemunho de Deus. Quando foi a última vez que você o recebeu? Um passeio pela relva alta num pasto verde. Uma hora ouvindo as gaivotas ou olhan-do as conchas numa praia. Ou observando os raios de sol brilharem sobre a neve numa madrugada fria de inverno. Milagres que quase se comparam com a magnitude do túmulo vazio acontecem em toda a nos-sa volta, só temos de prestar atenção.

O velho lavrador brasileiro me deu um princípio testado pelo tempo para levar para casa. Ele me fez lembrar que existe uma compreensão certa de Deus na cruz que só aparece ao atentarmos no seu teste¬munho diário. Há uma hora em que devemos pousar a caneta e os livros e sair de nossos escritórios e bibliotecas. Para realmente compreender e crer no milagre da cruz, faremos bem em observar os milagres divinos de cada dia.



1 1 Coríntios 2.5, paráfrase do autor.

2 Salmo 19.

























































DECISÕES EXPLOSIVAS



Ainda rio quando me lembro da piada que ouvi sobre o guarda-caça que recebeu uma lição de pesca.

Ao que parece, ele notou que aquele sujeito cha-mado Samuel sempre apanhava mais peixes do que todo mundo. Enquanto os outros só pegavam três ou quatro por dia, Samuel saía do lago com o bote cheio. Fieira após fieira de trutas frescas eram levadas por ele.

O guarda, curioso, perguntou a Samuel qual o seu segredo. O pescador bem-sucedido convidou o homem para acompanhá-lo e observar. Na manhã seguinte os dois se encontraram no embarcadouro e saíram no barco de Samuel. Quando chegaram ao meio do lago, pararam o bote e o guarda ficou sentado espiando.

A abordagem de Samuel era simples. Ele pegou um bastão de dinamite, acendeu-o e atirou-o para o ar. A explosão abalou com tal força o lago que peixes mortos começaram a aparecer imediatamente na su-perfície. Samuel pegou uma rede e começou a apa-nhá-los.

Você bem pode imaginar a reação do guarda-caça. Quando se recuperou do choque, começou a gritar para Samuel: "Você não pode fazer isso! Vou pô-lo na cadeia, companheiro! Vai ter de pagar tudo quanto é multa!" Samuel, enquanto isso, colocou a rede no chão e tirou outra barra de dinamite. Acendeu-a e atirou-a no colo do guarda com estas palavras: "Você vai ficar aí o dia inteiro se lamentando ou vai pescar?"

O pobre guarda tinha de tomar uma decisão rápida. Ele foi transformado num segundo de obser-vador em participante. Uma escolha explosiva tinha de ser feita e ele a fez bem depressa!

A vida é assim. Poucos dias se passam sem que tenhamos de enfrentar decisões inesperadas, não-an-tecipadas, todavia inevitáveis. Como uma bola de neve, essas decisões caem sobre nós sem aviso. Elas desorientam e confundem. Rápidas. Imediatas. Súbi¬tas. Nenhum aconselhamento, nem estudo, nenhuma notícia. Pum! De repente você é lançado nas ondas da incerteza e apenas o instinto irá determinar se cairá de pé.

Quer um bom exemplo? Olhe para os três após-tolos no jardim. Dormindo a sono solto. Cansados depois de uma refeição copiosa e uma semana ocupa-da, com as pálpebras pesadas demais, foram acorda¬dos por Jesus mas caíram de novo na terra dos sonhos. Da ultima vez, porém, foram despertados ao som de espadas ruidosas, tochas brilhantes e vozerio.

"Lá está ele!"

"Vamos agarrá-lo!"

Um grito, um beijo. Um arrastar de pés. Uma pequena luta. De repente é hora de tomar uma decisão. Não há tempo para reunir-se. Não há tempo para orar. Não há tempo para refletir ou consultar um amigo. Decisão.

Pedro faz a sua. A espada sai da bainha. A orelha cai. Jesus o censura. E agora o quê?

Marcos, que era aparentemente uma jovem teste¬munha, escreveu estas palavras: "Então, deixando-o, todos fugiram."1

Esse é um modo amável de dizer que eles saíram correndo como ratos assustados. Todos? Todos. Até

Pedro? Sim, até Pedro. Tiago? Tiago também. João? João, o amado? Sim, João correu igualmente. Todos fizeram isso. A decisão caiu sobre eles como um fantasma e não puderam senão fugir depressa. A única coisa que se movia mais depressa que seus pés era a batida de seus pulsos. Todas aquelas palavras de lealdade e compromisso foram deixadas para trás numa nuvem de pó.

Mas antes de fazermos um péssimo juízo desses seguidores de pés velozes, vamos fazer um auto-exame. Você talvez já esteve no jardim da decisão algu¬mas vezes. A sua lealdade já foi desafiada? Você já passou por essa armadilha do diabo?

Para o adolescente talvez seja uma dose de tóxico passada em volta do círculo. Para o homem de ne¬gócios pode ser a oferta de uma "bolada" por baixo da mesa. Para a esposa pode ser a oportunidade de passar adiante um "boato suculento". Para o estu¬dante pode ser a oportunidade de melhorar a nota copiando a resposta do colega. Para o marido pode ser a tentação de se irritar com as despesas excessivas da mulher. Num minuto estamos num barco tranqüilo num lago conversando sobre pesca, no minuto seguin¬te temos uma barra de dinamite nas mãos.

Quase sempre o resultado final é uma catástrofe. Em lugar de desligar calmamente a bomba, nós permitimos que venha a explodir. Nos achamos fazen-do exatamente o que detestamos. A criança em nós avança e o adulto segue atrás, meneando a cabeça.

Mas não é preciso que seja assim. Jesus não entrou em pânico. Ele também viu as espadas e bastões, mas não perdeu a cabeça. E era esta que os romanos queriam.

Ao reler a cena no jardim podemos ver a razão. Uma afirmativa feita pelo mestre oferece dois elemen-tos básicos para nos mantermos calmos no calor de uma decisão. "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação."2

A primeira arma: "Vigiai." Não existe outra mais prática que essa. Vigie. Fique atento. Mantenha os olhos abertos. Quando perceber que o pecado está vindo, se desvie. Quando souber com antecedência de um encontro desagradável, mude seus planos. Quan¬do sentir tentação, vá para outro lado.

Tudo o que Jesus está dizendo é isto: "Preste atenção." Você conhece as suas fraquezas. Você também sabe as situações em que as suas fraquezas ficam mais vulneráveis. Fique fora dessas situações. Banco de trás do carro. Horas tardias. Boates. Joga-tinas. Filmes imorais. Tudo o que possa dar entrada a Satanás em sua vida, evite. Vigie!

Segunda arma: "Orai." Orar não significa contar a Deus nada de novo. Não há qualquer pecador ou santo que possa surpreendê-lo. O que a oração faz é convidar Deus para andar conosco pelos caminhos sombrios da vida. Orar é pedir a Deus para ficar vigiando, impedindo que as árvores e grandes pedras caiam à nossa frente, que Ele guarde nossas costas contra os dardos venenosos do inimigo.

"Vigiai e orai." Um bom conselho. Vamos acei-tá-lo. Essa poderia ser a diferença entre um dia pacífico no lago e um bastão de dinamite arrebentan¬do em nosso rosto.



1 Marcos 14.50.

2 Marcos 14.38.

















































O QUE VOCÊ ESPERAVA?



Meu primeiro contato com as expectativas foi quando eu estava na quarta série ginasial. Um adoles-cente ruivo e sardento. Tudo começou com minha primeira namorada, Marlene. Puxa, como eu gostava dela! Ela era a rainha das rainhas. Fazia com que minha cabeça girasse e meu pulso se acelerasse como nenhuma outra. Ela deve ter sido em parte capaz de hipnotizar, pois quando estava em sua companhia eu só conseguia sorrir. Olhar e sorrir. Nenhuma palavra. Nenhum diálogo. Só um estúpido e tolo adolescente "apaixonado".

Certo dia ela consentiu em ser minha garota (ou seja, em termos adultos, ser minha namorada). Que beleza! Fogos de artifício, música, estrelas. Que venha a banda e toque! "Eu sou seu, Alteza."

Só havia um problema. Eu não tivera outra na-morada antes. Talvez seja por isso que um amigo bem intencionado me deu alguns conselhos durante o recreio um dia. "Um namorado deve fazer coisas para a namorada."

"Como o quê?"

"Como levá-la à sala de aula, seu tolo! Sentar-se com ela na hora do almoço. Esse tipo de coisa."

Naquele dia, esperei por ela na porta da cantina até que chegasse. Quando apareceu, peguei os seus livros como um cavalheiro, estendi o braço e fui com ela até a fila do almoço. O Príncipe Charles e a Princesa Diana jamais pareceram tão eloqüentes.

Tudo correu muito bem até o dia seguinte depois da aula. A melhor amiga dela veio procurar-me com a notícia, "Marlene quer acabar o namoro". Fiquei espantado. "Por quê?" "Porque você não sentou com ela no almoço."

O que eu fizera?

Tive minhas primeiras dúvidas sobre as mulheres naquele dia. Aprendi porém mais tarde que o proble¬ma não era feminino, mas tratava-se e continua sendo um problema humano.

Ê o problema das expectativas. Veja bem, Marlene esperava agora alguma coisa de mim. Eu me sentei com ela para almoçar um dia e portanto iria fazer-lhe companhia todos os dias. Embora nada tivesse sido declarado, a percepção se achava ali. Apesar de nenhum acordo ter sido feito, a suposição era igual¬mente forte. Ela esperava que eu estivesse ali. De¬cepcionei-a. (Brigamos.)

Isso parece familiar? Como é a sua experiência com as expectativas? Elas podem ficar sérias, sabe! Já fizeram muito mais do que atrapalhar o romance de um rapazinho. Divórcio, tensão no emprego, auto-imagem negativa, brigas na família, guerra de pala¬vras, amizades terminadas — tudo isso pode ser cau¬sado por esse criminoso — as expectativas.

Elas são como rifles. Usadas correta e adequada-mente, são valiosas e necessárias. Mas, como são rapidamente abusadas! Como carregamos depressa suas câmaras, preparamos o gatilho e abrimos um buraco naqueles que amamos. Devagar puxamos o gatilho. "Você me decepcionou." E ambos caímos vítimas da expectativa da bala.

Você já se apanhou usando essas palavras revela¬doras das expectativas pouco sadias? Você as usa com seus filhos?

"O seu irmão mais velho ganhou nota 'A' em química e sabemos que você não vai ficar atrás."

"Quando eu tinha a sua idade, filho, era um dos melhores jogadores do time na escola."

"Você vai ser um médico competente como o seu pai?"

"Olhe, filha, nem pense em ir para aquela facul-dade. Quando terminar o segundo grau vai para a mesma escola que freqüentamos. Já estou guardando dinheiro para as despesas!"

Ou talvez essas com o cônjuge:

"Se você tivesse um ordenado maior, João, nós poderíamos comprar aquela casa."

"Querida, prometi a Paulo jogar bola com ele no próximo sábado. Você não se importa, não é?"

"Não é minha culpa que a cozinha esteja uma bagunça. O dever da mulher é manter a casa em ordem."

Ou no trabalho:

"Eurico, tenho muita esperança em você nesta companhia. Não me decepcione."

"Sei que já passam das cinco. Mas estava certo que não se importaria de atender mais um cliente."

"Ê verdade que não pôde sair ainda de férias, Felipe. Mas os que se interessam por esta firma sinceramente, estão dispostos a sacrificar-se."

Expectativas. Elas criam o amor condicional. "Eu amo você. Mas vou amá-lo ainda mais se..."

Sei o que você está pensando. Não deveríamos esperar o melhor uns dos outros? Não deveríamos estimular uns aos outros para alcançar a excelência e não se contentar com nada inferior?

Absolutamente não.

Mas foi Cristo na cruz quem nos ensinou como fazer uso dessas expectativas. Ele exige muito? Ê bom que acredite nisso. Ele espera muito. Só o melhor. Ele tem expectativas a nosso respeito? Só quer que deixe-mos tudo, neguemos tudo e o sigamos.

A diferença? Jesus revestiu suas expectativas de dois elementos importantes. Perdão e aceitação.

Estude com atenção estas palavras escritas por Paulo: "Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores."1

Quando ele morreu por nós? Quando alcançamos a perfeição? Não. Quando vencemos toda tentação? Dificilmente. Quando havíamos aprendido bem o estilo de vida cristão? Longe disso. Cristo morreu quando nós éramos ainda pecadores. O sacrifício dele não dependia então de nosso desempenho.

Quando amamos com expectativas, estamos di-zendo: "Amo você. Mas vou amá-lo ainda mais se..."

O amor de Cristo não continha nada disso. Nenhu¬ma pressão, nenhuma expectativa, nenhuma agenda secreta, nenhum segredo. O amor dele por nós foi e é aberto e claro. "Amo você", diz ele. "Mesmo que me decepcione. Amo você apesar dos seus defeitos."

Logo após as expectativas de Cristo temos o seu perdão e ternura. Se cair da corda das expectativas do Mestre para você, irá aterrissar com segurança em sua rede de aceitação.

As expectativas por si mesmas são balas que podem matar; mas protegidas pela aceitação e per¬dão, podem trazer à superfície o que há de melhor. Mesmo nos romances de adolescentes.



1 Romanos 5.8.











































VOLTE PARA CASA



A prática de usar coisas terrenas para esclarecer verdades celestiais não é uma tarefa fácil. Todavia, ocasionalmente, encontramos uma história, uma len¬da ou fábula que transmite uma mensagem tão exatamente como centenas de sermões e com uma criatividade dez vezes maior. Esse é o caso da leitura abaixo. Eu a ouvi contada pela primeira vez por um pregador brasileiro em São Paulo. Embora a tivesse repetido inúmeras vezes, sua mensagem me aquece e me dá nova segurança sempre que faço uma recapitulação da história.

A casinha era simples mas adequada. Ela consistia de um quarto amplo numa rua empoeirada. Seu telhado de telhas vermelhas era um dentre os muitos naquele bairro pobre na periferia da cidade. Era uma casa confortável. Maria e sua filha, Cristina, haviam feito o possível para acrescentar cor às paredes cin¬zentas e calor ao chão de terra batida: um velho calendário, uma fotografia desbotada de um parente, um crucifixo de madeira. A mobília era modesta: um catre em cada lado do quarto, uma pia e um fogão a lenha.

O marido de Maria morrera quando Cristina era criança. A jovem mãe, recusando teimosamente casar-se de novo, arranjou um emprego e criou a filha do melhor modo que pôde. Agora, quinze anos mais tarde, os piores anos tinham passado. Embora o salário de doméstica recebido por Maria não lhes permitisse muitos luxos, ele era certo e fornecia às duas alimento e roupas. Cristina tinha também chega¬do a uma idade em que poderia arranjar um emprego e ajudar a mãe.

Alguns diziam que Cristina puxara à mãe em sua independência. Ela repelia a idéia de casar-se cedo e criar uma família, embora pudesse escolher entre vários pretendentes. Sua pele morena e olhos casta-nhos atraíam uma série de candidatos à sua porta. Ela tinha um jeito especial de jogar a cabeça para trás e encher o ambiente de riso. Tinha também aquela magia rara que algumas mulheres têm de fazer com que o homem se sinta um rei só por estar a seu lado. Mas a sua maneira irônica de tratar as pessoas mantinha todos os homens a uma certa distância.

Cristina falava muito de ir para a cidade. Ela sonhava em trocar seu bairro poeirento por avenidas suntuosas e a vida citadina. Essa idéia horrorizava a mãe. Maria imediatamente lembrava Cristina dos males das cidades grandes. "As pessoas não conhe¬cem você. Os empregos são difíceis de achar e a vida é cruel. Além disso, se fosse para lá, como iria viver?"

Maria sabia exatamente o que Cristina faria, ou teria de fazer para sustentar-se. Foi por isso que seu coração partiu-se ao acordar certa manhã e ver vazio o leito da filha. Maria soube na mesma hora para onde ela havia ido e sabia também o que deveria fazer para encontrá-la bem depressa. Jogou algumas roupas na mala, reuniu todo o dinheiro que tinha e saiu corren¬do de casa.

A caminho do ponto de ônibus entrou numa farmácia para comprar uma última coisa. Fotos. Ela sentou-se na cabine de fotografia, fechou a cortina e tirou fotos suas, gastando quanto pôde. Com a bolsa cheia de fotografias branco-e-preto de si mesma, ela tomou o primeiro ônibus que saía para o Rio de Janeiro.

Maria tinha certeza que Cristina não conseguiria ganhar dinheiro com facilidade. Sabia, entretanto, que ela era teimosa demais para desistir. Quando o orgulho se encontra com a fome, o ser humano faz coisas que jamais pensava fazer antes. Tendo conhe¬cimento disto, Maria começou suas busca. Bares, hotéis, nightclubes, qualquer lugar onde pudesse ha¬ver uma meretriz ou prostituta. Foi a todos. E em cada lugar deixou sua foto — colada no espelho do banheiro, pregada num quadro de avisos de hotel, presa numa cabine telefônica. E nas costas de cada uma escreveu uma nota.

Não demorou muito para que o dinheiro e as fotografias acabassem e Maria teve de voltar para casa. A mãe cansada chorou enquanto o ônibus iniciava sua longa jornada de volta para sua cidade-zinha.

Algumas semanas depois a jovem Cristina desceu as escadas do hotel. Seu rosto mostrava-se pálido. Seus olhos castanhos não dançavam mais, alegres e buliçosos, mas falavam de sofrimento e medo. Seu riso se fora. Os sonhos que tivera se transformaram em pesadelo. Mil vezes quisera trocar aqueles inúmeros leitos por seu catre seguro. Todavia, a cidadezinha em que vivera se tornara de muitas formas distante demais.

Ao chegar ao pé da escada, seus olhos notaram um rosto familiar. Ela olhou de novo e ali no espelho do saguão estava uma fotografia da mãe. Os olhos de Cristina queimaram e sua garganta contraiu-se en-quanto atravessava o salão e removia a pequena foto. Escrita nas costas da mesma achava-se este convite atraente: "O que quer que você tenha feito, o que quer que se tenha tornado, não importa. Por favor, volte para casa."

Foi o que fez.

"Ele (o Filho) que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser..."

"Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei."













































INCONSISTÊNCIAS CONSISTENTES



Suspeito que a coisa mais consistente sobre a vida seja a sua inconsistência.

Decidida a não ser classificada com exatidão, a vida optou por ser uma salada mista de tragédias e triunfos, profanidade e pureza, desespero e esperança. O mal está embaraçosamente próximo do bem. O justo medonhamente perto do injusto. E a vida? A vida está sempre a um segundo da morte. E a maldade? A maldade encontra-se paradoxalmente ligada à bondade. É como se apenas uma cortina transparente separasse as duas. Mediante a sedução certa, no momento certo, lançada contra a fraqueza certa, não existe ninguém vivo que não puxasse a sua cortina e pusesse em prática sua mais vil fantasia.

A inconsistência da vida.

Como resultado, um momento pode simultanea-mente introduzir a mais doce vitória ou a derrota mais esmagadora. O mesmo dia pode trazer reunião e separação. O mesmo nascimento pode trazer tanto dor como paz. A verdade e a meia-verdade freqüen-temente ocupam a mesma sela. (E você está certo, Tiago, o bem e o mal podem sair da mesma boca.)

"Se apenas a vida fosse mais simples!" racioci-namos. "Mais previsível!" Mas ela não é. Mesmo para o melhor de nós, a vida é como uma montanha russa cheia de curvas agudas e mergulhos repentinos.

Talvez seja por isso que todos temos em nosso íntimo uma certa paranóia, uma insegurança pertur-badora. Talvez a ocultemos com algumas camisas listadas e martinis, mas a ansiedade com relação ao futuro continua. Não vivemos todos temendo o desco-nhecido? Não nos amedronta pensar no dia horrível quando a cortina leve que nos separa do mal pode ser puxada e cairemos nele? Câncer. Assassinato. Estu¬pro. Morte. Como nos persegue essa consciência inquietante de que não somos imunes às adversidades e perigos da vida.

Essa inconsistência misteriosa é que nos mantém a todos, num ou outro grau, vivendo na beirada de nossas cadeiras.

Todavia, foi nesta inconsistência que Deus teve a sua melhor hora. Jamais o obsceno se aproximou tanto do santo como no Calvário. Jamais o bem no mundo se envolveu tanto com o mal como aconteceu na cruz. Nunca o que é reto se misturou a tal ponto com o que é errado, como quando Jesus foi suspenso entre o céu e a terra.

Deus numa cruz. A humanidade em seu pior foco. A divindade no melhor.

Alguma coisa é dita na cruz sobre as inconsis-tências. Algo esperançoso. Algo que cura. Em pala¬vras simples, o que é consistente lutou com o in¬consistente e venceu.

Algo também é dito sobre o próprio Deus. Deus não é detido por um mundo mau. Ele não fica ofegante e surpreso quando a nossa fé vacila ou ao ver a profundidade de nossos erros. Não podemos sur-preender Deus com nossas crueldades. Ele sabe a condição do mundo... e o ama mesmo assim. Pois justamente quando encontramos um lugar onde Deus jamais estaria (como por exemplo numa cruz), olha-mos de novo e ali está ele, na carne.





























































O RUGIDO



A porta está fechada. Trancada. Talvez haja até uma cadeira sob a maçaneta. Lá dentro se acham sentados dez transeuntes trêmulos que estão indecisos entre a fé e o medo.

Ao observar ao redor da sala, você não acreditaria tratar-se de um grupo que estava prestes a fazer ferver a chaleira da história. Incultos. Confusos. Mãos calo¬sas. Sotaques pesados. Poucas graças sociais. Conhe¬cimento limitado do mundo. Nenhum dinheiro. Lide¬rança indefinida. E muito mais.

Ao olhar aquele grupo heterogêneo, você não apostaria no futuro deles. Mas alguma coisa acontece ao homem quando observa alguém levantar-se dentre os mortos. A alma do indivíduo que ficou a poucos centímetros de Deus se agita, ele sente algo que é mais quente que a febre do ouro e mais permanente que a paixão.

Tudo começou com dez homens tartamudeando, gaguejando. Embora a porta estivesse fechada, ele mesmo assim encontrava-se no meio deles. "Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio."1

E os enviou realmente. Portos. Pátios. Barcos.

Sinagogas. Prisões. Palácios. Eles foram a toda parte. Sua mensagem do Nazareno circulou através do mun¬do civilizado. Eles eram uma febre infecciosa. Um organismo vivo. Recusavam deter-se. Homens incultos que abalaram a história como uma dona-de-casa sacode um tapete.

Não seria maravilhoso ver isso de novo?

Muitos dizem que é impossível. O mundo está endurecido demais. Muito secularizado. Muito pós-cristão. "Esta é a era da informação e não da rege-neração." Trancamos então a porta com medo do mundo.

Como resultado, o mundo continua em grande parte intocado e não ensinado. Mais da metade dele ainda não ouviu a história do Messias e muito menos a estudou. Os poucos crentes que se atrevem a sair, voltam cansados e feridos para casa, perturbados com as dificuldades e frustrados com as necessidades.

O que seria necessário para que o fogo ardesse novamente? De alguma forma, aqueles indivíduos na sala de cima fizeram isso. Fizeram isso sem arrastar os pés ou arranjar desculpas. Para eles não havia dúvi¬das. "Tudo o que sei é que ele estava morto e agora está vivo."

Alguma coisa acontece ao homem quando ele fica a centímetros do Leão de Judá. Alguma coisa acontece quando ele ouve o rugido, quando toca a juba doura¬da. Alguma coisa acontece quanto ele chega tão perto que sente o bafo do Leão. Talvez todos nós pudés¬semos aproveitar com uma nova visita. Talvez todos nós precisemos testemunhar sua majestade e respirar aliviados com a sua vitória. Talvez tenhamos de ouvir de novo a nossa comissão. "Vocês dirão a eles?" desafiou Jesus. "Dirão a eles que voltei... e que voltarei outra vez?"

"Nós diremos", afirmaram. E fizeram isso.

Você fará?



1 João 20.21.



















































CONTRACAPA



Idéias novas, estimulantes e encorajadoras sobre o que Cristo realizou na cruz para cada crente.

Um dos livros mais relevantes de nossos dias, que deve ser lido por todos os cristãos e presenteado a todos os amigos incrédulos.

_ Ron Rudd

Distribuidor, Parable Bookstores



Ficamos imaginando o que alguém poderia dizer que já não tivesse sido dito sobre a cruz, mas Max Lucado conseguiu! Ele não é só um escritor talentoso, mas Deus lhe concedeu evidentemente uma profundidade de pensamento criativo, peculiar e destacado. Já pedimos mais quatro exemplares para conhecidos nossos que sabemos que irão tirar proveito de sua leitura.

_ Jack e Carole Mayhall

Escritores ligados à Missão “Navigatores”



Jamais li um exame tão impressionante da importância da cruz para cruz para o testemunho cristão.

_ Mark O. Hatfield

Senador Norte Americano